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Suicídios na igreja e tabu

Não nos cabe julgar ninguém, decretando que a pessoa irá para o céu ou inferno


Suicídios na igreja e tabu

Hoje, meu coração está triste ao ter lido que dois pastores se suicidaram esta semana. Segundo li, um dos casos aconteceu em Cornélio Procópio/PR no último domingo. O pastor Ricardo Moisés, da Igreja Assembleia de Deus, se enforcou em sua casa que fica nos fundos da igreja. Com 28 anos de idade, Ricardo foi encontrado já sem vida por sua esposa, que chegou a acionar o SAMU e a Polícia Militar, mas era tarde demais.

E ontem, dia 12 de dezembro, o pastor Júlio César Silva, ex-presidente da Assembleia de Deus Ministério Madureira em Araruama/RJ tirou a própria vida por enforcamento. O corpo do pastor foi encontrado na varanda de sua casa.

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Ao ler isso, fiquei pensando sobre a questão do SUICÍDIO e como muitas igrejas tratam esta questão. E infelizmente, fiquei triste de ver alguns irmãos nas redes sociais falando que eles tinham mentes fracas, que deram espaços para o diabo, etc., aparentemente mostrando nenhuma empatia neste momento de dor e luto pelas famílias envolvidas.

A meu ver, o principal problema é a visão infantil de alguns cristãos de quererem sempre espiritualizarem tudo e acharem que são seres “diferenciados” dos demais e que o mal não os atacará. E até mesmo os distúrbios mentais, que são doenças, são vistos desta forma.

Ora, não é algo anormal sentir-se triste em momentos específicos da vida, como quando um ente nosso vem a morrer. Porém, por uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, muitas pessoas acabam sentindo essa tristeza por longos períodos e nem sempre tendo um motivo aparente para se sentirem assim.

Neste contexto, temos a depressão que é uma doença, que acaba afetando a qualidade de vida, relacionamentos e a forma como a pessoa enfrenta o mundo. Nada parece ter mais brilho. Toda batalha parece perdida e vã. Conversando com um psiquiatra, amigo, ele me contava que em 2030, já será a maior epidemia mundial.

E, como doença, deve ser tratada com todos os meios disponíveis, como psicoterapia, tratamentos psiquiátricos, sendo a fé também um grande alicerce nestes momentos para muitos. Ou seja, é uma enfermidade que tem que ser enfrentada de frente, e não vista como um tabu, como ocorre muitas vezes no mundo religioso.

Creio eu que, no caso de pastores, a coisa ainda pode ser potencializada pelo fato de que a maioria busca passar uma imagem para suas ovelhas  de que não é vulnerável, um exemplo a ser seguido em todos os aspectos. Ou seja, é uma pressão muito grande da comunidade e que muitas vezes a própria pessoa se impõe.

Fico pensando também como um pastor deve ter um equilíbrio emocional para aguentar todos os dias, uma hora estar em um funeral, outra hora em um hospital, outra hora ouvindo os dramas de seus fiéis no aconselhamento. Fora que muitas famílias de pastores passam por grandes problemas, pela ausência dele do lar.

Concluo, dizendo que não nos cabe julgar ninguém, decretando que a pessoa irá para o céu ou inferno, que a pessoa é um fraco ou não, etc. O julgamento é de Deus. Somente Ele conhece exatamente aquilo que vai no coração do homem, e certamente, no Seu juízo, Ele não será raso como nós que, muitas vezes, somos extremamente simplistas em nossa visão da vida. Amém.



Procurador da Fazenda/Professor. Membro da Igreja Presbiteriana do Brasil

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