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Reforma Protestante: Causas e consequências (2)

“Tese nº 52 - Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.” Martinho Lutero


Reforma Protestante: Causas e consequências (2)

Em continuidade ao artigo anterior, passaremos a explanar a essência da Reforma Protestante, marco ímpar do retorno do povo de Deus à observância às Sagradas Escrituras.

Antes de adentrarmos no cerne da Reforma, necessário é, ainda que de maneira panorâmica, tecermos algumas palavras quanto aos arautos que foram utilizados por Deus para concretização desse evento. Não é historicamente correto afirmar que a Reforma Protestante foi obra exclusiva de Lutero; por respeito à verdade, há que se considerar que muitos valentes antes de Lutero ousaram se levantar contra o sistema religioso vigente, intrinsicamente corrompido, mesmo diante da possibilidade de perderem suas próprias vidas, afinal, não foi justamente este o exemplo que nossos primeiros irmãos nos deixaram diante da perseguição romana no início da Igreja Cristã?

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O primeiro sobre o qual discorreremos brevemente é John Wycliffe. Homem de posições fortes e raciocínio lógico apurado, gerou grandes desconfortos às autoridades eclesiásticas ao denunciar que o “senhorio” opressor de alguns poderosos não é legítimo diante de Deus. Homem deveras admirado na Universidade de Oxford, na Inglaterra, foi perseguido em vida, até que, após sua morte, ao ser condenado no Concílio de Constança, teve seus restos exumados e queimados, com suas cinzas lançadas no rio Swift. Conforme ensina o Prof. Justo L. Gonzalez, Wycliffe se opôs aos excessos do clero romano por entender que eram contrários à vontade de Deus. vejamos:

“Qualquer pessoa tem domínio ou senhorio sobre outra somente porque Deus lhe concedeu. Mas existe também um senhorio falso e ilegal, puramente humano. Este é uma usurpação, em vez de ser senhorio verdadeiro. A Bíblia nos fornece um critério claro para distinguirmos entre os dois: Jesus Cristo, a quem pertence todo domínio, não veio para ser servido, mas para servir. (…) Aquele que procura o seu próprio bem e não servir aos seus governados é tirania e usurpação. As autoridades eclesiásticas, portanto, o papado em particular, se se empenham em impor impostos para proveito próprio, e não para servir aos que lhes estão subordinados, são ilegítimas.1” (GONZALEZ, 2007)

As doutrinas ensinadas por Wycliffe foram incômodas ao papado da época. Por recorrer à Bíblia e ao padrão de Cristo, mesmo que contra o poder temporal-religioso de seu tempo, Wycliffe é considerado pelos estudiosos como um dos pré-reformadores mais notáveis, que preparam o caminho para que Deus levantasse Lutero para o Seu propósito.

Outro gigante que não pode deixar de ser citado, ainda que brevemente, é John Huss. Este jovem homem de Deus se tornou um dos pregadores mais enfáticos e entusiasmados de seu tempo. Vivia em um período em que a Igreja Católica Romana estava sob a égide de 3 papas, simultaneamente. Como é comum aos que se levantam contra um sistema opressor estabelecido, Huss contrariou, por meio de suas pregações, os interesses de muitos poderosos do clero, a ponto de ser proibido, pelo então papa Alexandre V, de pregar na capela de Belém, da qual era o responsável. Huss teve que decidir entre a obediência a um papa de caráter duvidoso e a sua consciência em levar a verdade de Deus. Huss decide desobedecer a ordem papal e, corajosamente, pregava com cada vez mais ânimo e vigor as Palavras de Jesus, a ponto de declarar veementemente que um papa indigno, que se opunha ao bem-estar da igreja, não deveria ser obedecido. Huss foi convocado a se explicar pelo papa João XXII.

De posse de um salvo-conduto imperial, Huss vai a Constança e prova que suas doutrinas eram, na verdade, fruto da mais pura ortodoxia. Comum dos ardilosos, seus opositores deram um jeito de condená-lo à fogueira por heresia. O imperador decide retirar o salvo-conduto entregue em favor de Huss, deixando-o nas mãos de seus algozes. Por fim, no dia 06 de julho de 1415, com apenas 45 anos de idade, “Huss foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último, lhe colocaram uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplicio, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros2.” (GONZALEZ, 2007)

Ao pedirem que se retratasse, mais uma vez ele negou com firmeza, até que, ao entregar sua vida, assim orou: “Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-te que tenhas misericórdia dos meus inimigos.” Morreu cantando salmos!

No cárcere, antes de ser sentenciado, Huss disse: “Podem matar o ganso [em alemão, sua língua natal, huss é ganso], mas daqui a cem anos, Deus suscitará um cisne que não poderão queimar.” Cento e dois anos depois de John Huss, o “cisne” afixou, na porta da Igreja de Wittenberg, as suas 95 teses contra as indulgências, ato que gerou a Grande Reforma Protestante.

Antes de deflagrar a Reforma Protestante, Lutero viveu em um convento, entregando sua vida ao estilo monástico. Homem extremamente temente a Deus, tinha no mais profundo do seu coração um pavor de seus pecados e a certeza de sua condenação. Até que, certo dia, pela profunda misericórdia de Deus, Lutero recebe o mais maravilhoso presente de sua vida. “Lutero encontrara, na biblioteca do convento, uma velha Bíblia latina, presa à mesa por uma cadeia. Achara, enfim, um tesouro infinitamente maior que todos os tesouros literários do convento. Ficou tão embevecido que, durante semanas inteiras, deixou de repetir as orações diurnas da ordem. Então, despertando pelas vozes da sua consciência, arrependeu-se de seu desleixo: era tanto remorso, que não podia dormir. Apressou-se a reparar o seu erro: fê-lo com tanto anseio que não se lembrava de alimentar-se.” (BOYLER, 1995)

Esse é apenas um pequeno trecho da vida de Lutero, que ratifica seu profundo temor a Deus e à Sua Palavra.

Voltando à deflagração da Reforma, após o evento das 95 teses, Lutero foi excomungado pelo papa Leão X. convocado a comparecer diante do Imperador Carlos V para responder pessoalmente aos seus acusadores, embora desestimulado a tal por seus amigos, Lutero certo de sua causa, não hesitou, conquanto lhe tivessem alertado do ocorrido anos antes com Huss.

É importante apontar que este Carlos V era, nada mais nada menos, que o neto de Isabel, a Católica, citada no artigo anterior. Daí pode-se depreender o ambiente hostil para o qual Lutero estava sendo enviado.

Quando o núncio papal exigiu de Lutero, perante a ínclita assembleia, que se retratasse, ele respondeu: “Se não me refutardes pelo testemunho das Escrituras ou por argumentos – uma vez que não creio somente nos papas e nos concílios, por ser evidente que já muitas vezes se enganaram e se contradisseram uns aos outros –, a minha consciência tem de ficar submissa à Palavra de Deus.”

Quanta coragem! Ao regressar de Wittenberg, Lutero foi repentinamente rodeado num bosque por um bando de cavaleiros mascarados, que o conduziram ao castelo de Wartburgo. Este foi um plano do príncipe da Saxônia para salvar Lutero dos inimigos que planejavam assassiná-lo antes de sua chegada em casa.

Foi do castelo de Wartburgo que Lutero se dedicou com extremo afinco à tradução da Bíblia para o Alemão. Lutero era douto conhecedor do hebraico e do grego, o que pela Graça de Deus o ajudou nessa árdua e nobre missão. Em apenas 3 meses, o Novo Testamento estava traduzido para um alemão que todos entenderiam; e mais, Lutero não aceitou nenhum centavo de direitos autorias pela empreitada.

Além disso, a Alemanha da época (embora ainda não tivesse esse nome) estava fragmentada em diversos dialetos locais. Já existiam outras traduções da Bíblia na época, mas na forma de um alemão latinizado, o qual o povo e os mais humildes não compreendiam. A Bíblia traduzida por Lutero serviu, também, para unificação do idioma alemão, sendo adotada até os dias de hoje.

Como consequência doutrinária da Reforma Protestante, podemos destacar os 5 Solas: Sola Scriptura (Somente as Escrituras); Sola Fide (Somente a Fé); Solus Christus (Somente Cristo); Sola Gratia (Somente a Graça) e Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus).

Como não temos espaço para detalhar os 5 solas (o que poderemos fazer em um artigo a parte, se assim Deus o quiser), atentar-me-ei apenas ao Sola Scriptura (Somente as Escrituras).

Ao remetermos ao artigo anterior, lembramos que no séc. XII, o papa Inocêncio III proibiu a leitura da Bíblia por parte dos leigos, ou seja, todos que não pertenciam ao clero. Todavia, ao acessar a Palavra de Deus, Lutero pode perceber que muito do pregado pela autoridade eclesiástica de seu tempo contrariava, diametralmente, a Palavra de Deus. Desta feita, o movimento reformista apregoou que a autoridade final em matéria de fé não está, e nem poderia, nas mãos de qualquer homem que seja, mas sim na Palavra inspirada de Deus, ou seja, as Sagradas Escrituras. Assim, somente as Escrituras detêm a última Palavra em matéria de doutrina cristã, dado que foram inspiradas pelo próprio Deus, na pessoa do Espírito Santo.

Ademais, com a disponibilização da Bíblia às pessoas das diversas classes sociais, e não apenas ao clero, o povo pode começar a conferir a integridade das doutrinas religiosas da Igreja Romana perante a Palavra de Deus. Foi então que muitos dos dogmas católicos romanos caíram em completo descrédito, por contrariarem vexativamente as Escrituras Sagradas. A título de exemplo, enquadram-se nesta narrativa o dogma do purgatório, indulgências, adoração de imagens, oração pelos mortos, dentre outros.

Em reação, a Igreja Católica Romana deflagrou a malfadada Contrarreforma Católica. O que se deve destacar desse movimento é a adulteração da Bíblia. Explico: desde a tradução da Bíblia hebraica para o Latim (Vulgata) por Jerônimo, no final do séc. IV, 7 livros do Antigo Testamento (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, I e II Macabeus) não foram considerados inspirados, até porque não estavam contidos na Bíblia hebraica. Estes livros foram reunidos como anexos, ao final da Bíblia Latina. Jerônimo deixou claro que estes eram históricos, mas a que a Igreja Cristã não os tinha como inspirados. E assim permaneceram até a Contrarreforma Católica.

É que para fundamentar seus dogmas contrários às Escrituras, a Igreja Romana afirmou que havia alguns livros que eram canônicos (inspirados), mas que de uma segunda remessa, ou seja, Deuterocanônicos. Desta feita, foram inseridos no Antigo Testamento justamente estes 7 livros, que acabaram servindo como instrumento para fundamentar dogmas heréticos e contrários a toda a Escritura, os quais nunca foram efetivamente parte da Bíblia Sagrada, até esse momento.

Apenas a título de exemplo, no livro de Tobias (um dos livros inseridos pela Igreja Católica), um anjo mente a Tobias (Tb 5:13). Como pode um anjo de Deus mentir? Logo se vê que este texto não é inspirado. Ademais, neste mesmo livro, há o relato de que o tal anjo diz a Tobias que se ele arrancasse o coração e os rins de um peixe, e os queimasse, a fumaça teria poder para expulsar demônios (Tb 6:8). Ora meus irmãos, esse é um relato de prática de feitiçaria da época, e não é necessário muito esforço para constatar a não canonicidade deste livro.

Outro exemplo é o livro de II Macabeus (outro livro inserido pela Igreja Romana), onde o autor diz que se a narrativa ficou fraca e medíocre, foi por culpa dele, veja: “Se a composição está bem-feita e preenche sua finalidade, foi isto que desejei. Se está fraca e medíocre, é porque melhor não pude fazer.” II Mab 15:38. Ora, se esse texto fosse, de fato, inspirado por Deus, não haveria dúvida quanto à efetividade de sua mensagem, já que a inspiração divina e perfeita e plena. E é justamente o livro de II Macabeus que fundamenta a salvação pelas obras (6:18 – 7:41), o Purgatório e a oração em favor dos mortos (12:45,46) ensinados pelo Catolicismo Romano.

Por fim meus amados irmãos, muito temos que comemorar! A Providência Divina levantou homens cheios do Espírito Santo para despedaçar a opressão e religiosidade que permeou quase que completamente a Idade Média. Se hoje podemos adorar ao Senhor verdadeiramente, com acesso às Escrituras Sagradas, entendendo o que é a Graça de Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo é porque homens deram suas vidas em favor da verdadeira mensagem de Jesus Cristo! Que possamos nos alegrar e seguir o mesmo exemplo desses verdadeiros Heróis da Fé! Continuamos no próximo artigo…

Que Deus te abençoe grandemente, em nome de Jesus!

Referências:

  1. GONZALEZ, Justo L.. Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Sonhos Frustrados. Vol. 5, São Paulo: Vida Nova. 2007, p. 86.
  2. GONZALEZ, Justo L.. Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Sonhos Frustrados. Vol. 5, São Paulo: Vida Nova. 2007, p. 102.
  3. BOYLER, Orlando. Heróis da Fé. Rio de Janeiro: CPAD. 1995. 246 p.
  4. GONZALEZ, Justo L.. Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Reformadores. Vol 6.
  5. Bíblia Apologética, com Apócrifos. Instituto Cristão de Pesquisas.



Casado com Hellen Sousa e pai da princesa Acsa Sousa. Membro da Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (ANAJURE). Servidor Público Federal, graduado em Teologia e em Gestão Pública, e bacharelando em Direito. Diácono e Líder do Ministério de Acolhimento da Igreja Batista Cristã de Brasília. Contato para ministrações e estudos bíblicos: [email protected]

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