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Profecias messiânicas

A teologia da promessa do Messias desenvolvida nas páginas da Bíblia Sagrada dá origem tanto à esperança messiânica judaica quanto à gentílica.


Profecias messiânicas

“HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” Hebreus 1:1-2

O quê são as profecias messiânicas?

De forma geral, podemos definir as profecias messiânicas como textos do Antigo e do Novo Testamento que tratam da pessoa, da vida e da obra do Messias. Portanto, as profecias messiânicas, como apresentadas na Bíblia, revelam a identidade do Messias prometido a Israel.

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O Doutor Jacob Gartenhaus fez o seguinte questionamento a cerca de como se poderia reconhecer o Messias: “Como poderia o Messias ser identificado pelos judeus hoje? O povo judeu, em geral, ainda espera a vinda do Messias. O judeu praticante ainda ora por sua vinda e afirma diariamente sua crença nessa vinda muito em breve. Suponhamos que  em algum lugar (digamos em Jerusalém), um homem conhecido ou não, de repente apareça e afirme ser o Messias longamente esperado.

Como poderia provar sua pretensão? Por que meio poderia ser identificado? Como poderia provar ser da linhagem de Davi?” (GARTENHAUS, 1984, p.176).  O cumprimento das Profecias Messiânicas são as respostas a estas questões. Em 1 Pedro 3:15 está escrito: “(…) estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”, isso é o que se deseja com esse artigo.

A Promessa Messiânica

A teologia da promessa do Messias desenvolvida nas páginas da Bíblia Sagrada dá origem tanto à esperança messiânica judaica quanto à gentílica.

Com a revelação progressiva do conceito de messias (ungido) na vida de várias figuras tratadas como messias, estas meramente humanas – como no caso de Ciro, o Grande, a quem remete a profecia de Isaías 45:1 (“Assim diz o SENHOR ao seu ungido [messias], a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações diante de sua face, e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão”) – e também por meio de importantes eventos, foi-nos prefigurado no texto sagrado o Grande Messias (divino/humano), a quem o termo Messias passa a referir-se na história de Israel e na profecia bíblica.

Definindo o vocábulo Messias

Quanto à definição e o uso do vocábulo messias no texto bíblico, encontramos os seguintes comentários. O termo Māshîaḥ, segundo o dicionário Strong, significa: ungido, o ungido (STRONG, 2002. p.81). No dicionário VINE encontramos Māshîah como: “ungido, Messias” (VINE, UNGER, e WHITE JR, 2002. p.182.). Já conforme João 1:41, o Salvador prometido no Antigo Testamento (Tanach). Messias (transliteração do hebraico) é o mesmo que Cristo (grego) e quer dizer “Ungido”; e pode ser empregado como verbo, no sentido de ungir (KASCHEL e ZIMMER, 1999, p.207.).

Também, encontramos o vocábulo māshîah como: Ungido, aquele que é ungido (…), exclusivamente como sinônimo de “rei” (melek, q. u.), como em textos poéticos, onde é paralelo a “rei” (1Sm.2:10; 2Sm.22:51; cf, Sl.2:2; 18:51) (HARRIS, ARCHER JR. e WALTKE, 1998. p.885).

Segue o significado e uso do vocábulo māshîaḥ, em funções gramaticais do hebraico. A raiz do substantivo māšîaḥ é o verbo māšāh, que tem geralmente o sentido de “ungir”. Há também o emprego de Māšîaḥ como substantivo verbal, expressando a voz passiva e indicando especificamente o objeto sobre o qual a ação é praticada. O termo frequentemente aparece no construto, termo hebraico para o genitivo, (p.ex., mešîah yāhweh – “ungido do SENHOR”) ou com sufixo (p.ex., mešîhā).

Quanto às aparições no Antigo Testamento, pode-se destacar que no Pentateuco o substantivo verbal māšîaḥ refere-se quatro vezes a sacerdotes (Lv.4:3,5,16;6:22). Ademais, é usado para referir-se a uma pessoal real dezoito vezes em 1 e 2 Samuel (sendo que mais da metade dessas passagens contém a expressão mešîah-yāhweh, “ungido do SENHOR”), conforme lê-se em 1 Samuel 24:6: “E disse aos seus homens: O SENHOR me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do SENHOR, estendendo eu a minha mão contra ele; pois é o ungido do SENHOR” [grifos nossos].

O mesmo ocorre duas vezes em Crônicas (1Cr.16:22; 2Cr.6:42), dez vezes nos Salmos – por exemplo em Salmo 2:2: “Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o SENHOR e contra o seu ungido [grifo nosso]” – e cinco vezes nos profetas Posteriores (p.ex., Is.45:1; Hc.3:13). Das últimas dezessete ocorrências, quinze seguramente referem-se a figuras reais (p. ex., a figura de um rei) humanas ou divinas (GRONINGEN,  2003, p.15-17).

Desta forma, pode-se afirmar que o termo ungido é a tradução mais adequada do termo Māshîaḥ para o português, conforme aponta o Dicionário Hebraico-Português (KIRST, KILPP, SHWANTES, RAYMANN, e ZIMMER, 1987, p.144).

Olhando para o uso comum do termo māshîaḥ, este refere-se àquele que é ungido com óleo (simbolizando o recebimento do Espírito Santo), sendo capacitado a fazer uma tarefa designada. No caso de Ciro, este foi ungido só com o Espírito de Deus e comissionado para ser o “libertador ungido” de Israel (Is.45:1).

No Israel bíblico, três pessoas eram ungidas com óleo: o sacerdote – como na unção de Arão como Sumo-sacerdote (“E tomarás o azeite da unção, e o derramarás sobre a sua cabeça; assim o ungirás” [Êx.29:7]); o profeta – como no caso de Eliseu, quando substituiu o profeta Elias (“e também a Eliseu, filho de Safate de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar” [1Rs.19:16b]); e o rei – conforme a unção de Davi como rei relatada no texto bíblico (“Então mandou chamá-lo e fê-lo entrar [e era ruivo e formoso de semblante e de boa presença]; e disse o SENHOR: Levanta-te, e unge-o, porque é este mesmo. Então Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o no meio de seus irmãos; e desde aquele dia em diante o Espírito do SENHOR se apoderou de Davi; então Samuel se levantou, e voltou a Ramá” [1Sm.16:12-13]).

Posteriormente à promessa feita a Davi (2Sm.7:13), māshîah passou a dizer  respeito diretamente à dinastia davídica, todavia, em última instância, apontando para o “Messias”.

Conforme apontou Groningen, quando se consulta a maior parte da literatura existente, sobre o Messias especificamente ou sobre o messianismo de modo geral, a designação estrita é usada geralmente para referir-se à ideia do rei como ungido. A ideia especifica, que os eruditos afirmam ser a essência da ideia messiânica, é a de figura real. Dizer “messias” é dizer: o rei que reinou, ou que agora reina, o rei prometido ou o que se espera que venha reinar (GRONINGEN, 2003, p.18).

Cabe ressaltar que a legitimidade da escolha do messias está em Deus. O Antigo Testamento deixa muito claro que o único legitimamente designado para ser ungido é aquele que o Senhor escolheu. Este foi o caso de Arão como sumo sacerdote, dos sacerdotes (Êx.29:7; 40:15), de Eliseu, o profeta (1Rs 19:16), bem como dos reis (1Sm.9:17; 16:3) (GRONINGEN, 2003, p.22).

O Messias na Bíblia Hebraica

A crença na vinda do Messias é fundamental para a fé judaica, tanto quanto é para a fé cristã, pois está claramente apresentada na Torah (Torah: lei, instrução, ensinamento; termo hebraico para Pentateuco – os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio; também conhecido em hebraico como Chumásh).

Ao olharmos o desenvolvimento do conceito messiânico na Torah, encontraremos o protoevangelho (primeiro evangelho), apresentando o Messias como semente da mulher em Gênesis 3:15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Como descendente de Sem: “E disse: Bendito seja o SENHOR Deus de Sem” (Gn.9:26a). De Abraão: “e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn.12:3b). De Isaque (Gn.26:1-6), Jacó (Gn.28:10-17) e de Judá, o quarto filho dentre os doze filhos de Israel (Jacó) – “Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão. O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos” (Gn.49:8,10). Tais profecias cumprem-se na pessoa bendita do Senhor Jesus, que veio da semente da mulher, é semita, descende dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó e é da tribo de Judá (Gl.4:4; Mt.1:1-2; Lc.3:36).

Nos Profetas e nos Salmos, por sua vez, encontram-se referências a seu nascimento, como cumprimento profético das promessas divinas; sua vida, isto é, o propósito de sua encarnação; sua morte, de forma vicária em nosso lugar; e  sua ressurreição – para dar-nos vida eterna, ao vencer a morte, nosso maior inimigo.

Neste sentido, ambos, judeus e cristãos, têm em comum uma concepção de Deus, a crença na Bíblia e no Messias. O Credo Judaico, por exemplo, feito por Maimônides (1135 – 1204), confirma essa ideia: “Eu acredito plenamente na vinda do Messias, ainda que possa tardar, no entanto espero a cada dia pela sua vinda” (MAIMON, 1991. p.18).

Ademais, para destacar a visão do Messias no judaísmo, apresento o pensamento do filósofo judeu Filo de Alexandria (cerca de 20 a.C. – 45 d.C.). Para Filo de Alexandria, o Messias seria um guia espiritual que possuiria atributos espirituais e qualidade ética, que haveria de lutar e vencer e que possuiria uma grande força física (apud GRONINGEN, 2003, p.75).

Na visão judaica rabínica o Messias será humano, restaurará o reino de Davi, reconstruirá o Beit Hamicdash (Templo Judaico), reunirá os dispersos de Israel, restituirá todas as leis da Torá, sofrerá em prol do povo judeu como pastor fiel e realizará milagres (SCHOCHET, 1992, p.17). O que não impede a crença num Messias divino por parte de outros grupos judaicos. Como bem destacou o Dr. Gartenhaus: os sábios judeus diferiam grandemente em sua descrição do Redentor, dependendo dos tempos e lugares, e da condição material e cultural do povo, de modo que alguns pensavam nEle como uma pessoa divina, todo-poderosa (GARTENHAUS, 1984, p.125).

Já no Novo Testamento, os escritores reconhecem Jesus como o Messias profetizado no Tanach (Tanach: acrônimo utilizado para a  divisão em três partes da Bíblia Hebraica [Torah – Lei; Neviim – Profetas; Ketuviim – Escrito]; conhecido no ocidente como Antigo Testamento) e fazem questão de mencionar os textos da Bíblia Sagrada reconhecidos como messiânicos por judeus e cristãos, destacando seu cumprimento na vida e obra do Senhor Jesus.

Os Evangelhos identificam Jesus como o Ungido, o Messias e o Rei profetizado e esperado por Israel. Vejamos a combinação dos termos de messias e rei no evangelho: “Este achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo)” (João 1:41), aqui Jesus é apresentado como o Messias por André (Jo.1:40), enquanto Natanael o chama de “o rei de Israel” em João 1:49 – em uma combinação clara do conceito messiânico. Tal conceito também figura na declaração da mulher samaritana: “A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo” (João 4.25).

Jesus é o Messias prometido na Bíblia Hebraica, pois ele cumpriu de forma cabal a maior parte das chamadas profecias messiânicas. Faltando apenas aquelas que ele próprio e seus apóstolos apontaram que serão cumpridas no seu Retorno Glorioso. Aguardemos! Amém!



Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestre em Letras - Estudos Judaicos (USP).

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