MENU

Lição 10 – Precisamos de vigilância espiritual

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 10 do trimestre sobre "As Parábolas de Jesus"


Precisamos de vigilância espiritual

A Lição de hoje é baseada na parábola dos dois servos: o servo (ou escravo) bom e o servo mau. Alguns comentaristas entendem que a parábola fala, na verdade, de apenas um servo que pode ser encontrado em duas atitudes diferentes, de acordo com as quais será julgado [1]. Todavia, como as parábolas comparativas de Jesus sempre trabalham com dois grupos distintos de pessoas distintos, cremos que o mesmo se aplica aqui. Esta é uma parábola sobre as atitudes dos que professam serem servos de Jesus diante da realidade de sua vinda, ainda que ela seja imprevisível.

Antes de prosseguirmos, gostaria de te apresentar um conteúdo que pode lhe ajudar a melhorar suas aulas na Escola Bíblica Dominical. O curso produzido pela Universidade da Bíblia chama-se Formação de Professores para Escola Bíblica Dominical e tem matérias sobre a psicologia da educação cristã, didática, métodos de ensino entre outros. Clique aqui e saiba mais!

I. Interpretação da parábola dos dois servos

  • Contexto da parábola

Apenas o evangelista Mateus registrou essa parábola. Os capítulos 24 e 25 de seu evangelho tratam de aspectos escatológicos do reino de Deus, destacando-se a necessidade de prontidão daqueles que almejam adentrarem no reino vindouro de Jesus Cristo.

Nos versículos imediatamente anteriores ao da parábola dos dois servos, Jesus ressaltou que dado o caráter imprevisível de sua vinda, a vigilância e a prontidão dos crentes devem ser uma constante. Então ele conta esta parábola para falar das devidas recompensas que cada um receberá mediante a sua postura quanto a vinda do Senhor.

  • O servo fiel e prudente

Jesus fala de um servo “fiel e prudente que o Senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo” (v. 45). Keener explica que “muitas vezes, um chefe de família abastado tinha em casa um escravo ‘administrador’, ou ‘mordomo’, cuidando de sua propriedade. Esse escravo [a palavra grega para ‘servo’ e ‘escravo’ é a mesma, que é doulos], de posição mais elevada que os demais, poderia ser encarregado de alimentar os outros servos da casa” [2].

Sobre este servo, Jesus diz: “Bem-aventurado aquele servo que o Senhor, quando vier, achar servindo assim” (v. 46). A fidelidade ao serviço que lhe foi ordenado é uma marca indelével de um servo fiel e prudente. Ele é fiel porque corresponde às expectativas de seu senhor, e é prudente porque administra com sabedoria a provisão do alimento para os demais servos. Como esta é uma parábola sobre a vinda do Senhor Jesus, R. T. France destaca que “a nossa ‘prontidão’ para a vinda de Jesus não está na especulação animada, mas na fidelidade em serviço” [3].

O Senhor não espera encontrar seus servos brigando ou em roda dos escarnecedores (v. 37,38,49), mas “servindo assim”. Ou seja, prudentemente ocupados no trabalho que lhes foi ordenado. Como dizia o apóstolo Paulo, “requer-se dos despenseiros que cada um se ache fiel” (1Co 4.2). Para estes servos fieis e prudentes no trabalho, há a maravilhosa recompensa: “[o Senhor] o porá sobre todos os seus bens” (v. 47). Esta é uma promessa sobre novas responsabilidades que serão dadas aos servos de Cristo no seu reino vindouro, desde o reino milenar até a eternidade! Visto que foram fiéis no pouco, serão colocados sobre o muito (Mt 25.23)

  • O servo mau

Apesar de também ser chamado de servo, nota-se que a partir da demorada ausência de seu senhor, este servo comporta-se como um verdadeiro “estranho na casa”, abusando das economias de seu senhor e violentando seus conservos.

Orlando Boyer ressalta que o mau servo não é descrente, nem escarnecedor, nem agnóstico; é, por profissão, um servo de Jesus Cristo, isto é, declara crer no Senhor Jesus e até acredita em sua segunda vinda. “A sua falta”, diz Boyer, “não consiste em negar a volta de Jesus, nem em dizer que é para ser considerada figuradamente, mas em declarar: ‘Meu Senhor demora-se’, ou: ‘Que meu Senhor virá é certo, mas não é necessário preocuparmo-nos com tal evento agora’” [4].

O exegeta batista A. T. Robertson observa que “é inútil fixar o dia e a hora da vinda de Cristo”, mas também, dizia ele, “é loucura não fazer caso dela” [5]. O servo mau que se pôs a espancar os conservos ao invés de alimentá-los, e que gastou as economias de seu senhor comendo e bebendo com os bêbados, ignorava que a despeito da demora, seu senhor chegaria a qualquer momento e poderia flagrá-lo em dissolução (v. 50). Ignorou a severidade de seu senhor e usou a demora dele como desculpa para agir desregradamente!

A recompensa (v. 51) para o servo mau é que seu senhor:

  1. separa-lo-á” – isso não significa separar de um grupo, mas separar o próprio mau servo de si mesmo. A expressão grega traduzida ao pé da letra é “cortar ao meio”. Keener explica que “o decepamento de membros do corpo (normalmente depois da morte) era punição vista pelos judeus como demasiadamente cruel, mas praticada, mesmo assim, por alguns gentios” [Keener, p. 123]. Claro que aqui não há o prenúncio de decepamento de membros do corpo no julgamento final, mas é inegável que estamos diante de uma imagem muito forte usada por Jesus para falar do terror da danação eterna para aqueles servos maus que forem infiéis e imprudentes! Colherão a violência que plantaram contra seus conservos.
  2. “destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes” – isso fala do destino final daqueles que professavam serem servos, mas que viviam como verdadeiros tiranos! Para estes, o divertimento e o prazer darão lugar ao pranto e ao ranger de dentes, isto é, ao sofrimento eterno. Ora, se amar ao próximo como a si mesmo é o segundo maior mandamento (Mc 12.31), não é de estranhar que a desobediência irretratável contra este mandamento receba tão dura pena no dia do juízo!

II. Um chamado à vigilância

Nesta parábola, nenhum dos servos sabe o dia e a hora que seu senhor voltará. De fato, ele até demora a vir. Mas o primeiro servo, correspondendo às expectativas de seu senhor, ocupa-se incessantemente no serviço que lhe foi dado. Não estamos diante de uma espera ociosa, contemplativa, mas operativa! O servo espera “servindo”.

  • “Jesus demora a vir” – uma queixa antiga

Todos os servos são tentados por pensamentos vários a desanimar da espera de seu Senhor e não raro o velho homem quer voltar a reinar para satisfazer-se nos prazeres efêmeros da carne. Ainda no primeiro século, quando não havia nem 50 anos que Jesus tinha retornado aos céus, os murmuradores já se queixavam: “O que houve com a promessa da sua vinda? Desde que os antepassados morreram, tudo continua como desde o princípio da criação” (2Pe 3.4).

Dois mil anos se passaram e, como se podia esperar, essa queixa persiste e só aumenta, não apenas entre os descrentes, mas até mesmo entre os crentes! Muitos até se desviaram do Evangelho, justificando que “Jesus ainda vai demorar, e poderei voltar aos caminhos dele mais lá pra frente”. Outros há que digam: “Bem, se eu não subir no arrebatamento, serei salvo durante a grande tribulação”, e vão se tornando condescendentes com seus próprios pecados! Consideraram a bondade de Deus, mas estão esquecendo da sua severidade (Rm 11.22).

  • Deus retribuirá a cada um segundo suas obras

Estas palavras do apóstolo Paulo deveriam levar-nos a uma constante vigilância de nossa postura em relação ao que recebemos de Deus:

“Deus retribuirá a cada um conforme o seu procedimento. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal: primeiro para o judeu, depois para o grego; mas glória, honra e paz para todo o que pratica o bem: primeiro para o judeu, depois para o grego” (Rm 2.6-10).

O servo mau embriagava-se, a nós nos é dito: “E já está próximo o fim de todas as coisas; portanto sede sóbrios e vigiai em oração” (1Pe 4.7); o servo mau agredia seus conservos; a nós nos é ordenado: “Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15.12).

III. Vivendo com discernimento

  • Está mais perto do que imaginamos!

Não sabemos quando Jesus vai voltar, mas sabemos que ele vai voltar, e a qualquer hora! Nenhum sinal precisa anteceder o arrebatamento da igreja do Senhor. Isso é o que se chama de “a doutrina da iminência”, ou seja, o ensino de que a vinda de Jesus está muito próxima. Dizia o apóstolo João há quase dois mil anos: “Filhinhos, é já a última hora” (1Jo 2.18). Dado o tempo que se passou desde que este texto foi escrito, creio ser razoável dizer que já estamos nos “últimos segundos” que antecedem a vinda de Cristo para a sua Igreja!

  • O que o retorno de Cristo representará para nós?

As igrejas estão cheias de pessoas que sabem que Jesus está vivo e que ele vai voltar, mas é notório que nem todas estão preocupadas em viverem sobriamente, em santidade e serviço ao Senhor. Vícios, violência doméstica, sensualidade, desrespeito às autoridades, intrigas e muitos pecados ocultos vão se acumulando no coração de muitos crentes professos, que, como o mau servo, ignoram que a qualquer hora seu Senhor pode voltar!

Diz o belo hino da Harpa Cristã:

“Cristo Jesus logo vai voltar,
Vai voltar, vai voltar,
Seu povo vem, sim, arrebatar:
Jesus breve regressará” [6]

Agora medite na letra da terceira estrofe deste hino:

“Como há de ser para ti Sua vinda?
Ela trará gozo ao teu coração?
Ou te fará padecer mais ainda?
Temes que só te trará maldição?”

O retorno do senhor da parábola contada por Jesus representou ao mesmo tempo gozo para o servo vigilante e operativo, como representou maldição para o servo infiel e leviano! A vinda de Jesus igualmente trará gozo aos servos diligentes, mas tristeza aos servos negligentes. Será maravilhoso para os que o aguardam, mas implacável para os que o ignoram!

Conclusão

Cristo breve virá, pode ser a qualquer momento. Ele mesmo nos garante: “Eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra” (Ap 22.12). A comparação é forte, mas o próprio Jesus e seus apóstolos a fizeram: como ladrão que não avisa a que horas fará o assalto, assim virá Jesus, repentinamente! (Mt 24.43,44; 1Ts 5.2; 2Pe 3.10) Que não fiquemos apenas a esperar Jesus contemplativamente (olhando para as nuvens), e muito menos em dissolução (demonstrando falta de temor), mas que estejamos aguardando nosso amado Senhor em constante serviço. Sejamos firmes, constantes e sempre abundantes (fazendo cada vez mais) na obra do Senhor! (1Co 15.51). Somente assim poderemos dizer, sem medo, “Maranata!

____________
Referências

[1] Claiton Kunz. Parábolas de Jesus e seu ensino sobre o reino de Deus, A.D. Santos, p. 195
[2] Craig Keener. Comentário histórico-cultural da Bíblia – Novo Testamento, Vida Nova, p. 123
[3] R.T. France. em Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, p. 1409
[4] Orlando Boyer. Espada Cortante 1, CPAD, p. 415
[5] A.T. Robertson. Comentário Mateus e Marcos à luz do Novo Testamento Grego, CPAD, p. 272
[6] hino 70 da Harpa Cristã, CPAD. Autoria/tradução de Paulo Leivas Macalão



Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.


Deixe sua opinião!