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O perigo da indiferença espiritual

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 9 do trimestre sobre "As Parábolas de Jesus"


O perigo da indiferença espiritual

A Lição de hoje é baseada numa breve parábola de Jesus registrada no Evangelho de Mateus, capítulo 21 e versículos 28 a 30. É uma parábola simples, cujo sentido deve ser logo captado pela mente mais atenta às palavras de Jesus. O exegeta Grant Osborne dizia que o teólogo tem o costume de querer ver mais no texto do que o texto de fato está dizendo. Para não incorrer neste erro, nos contentaremos com a interpretação contextual desta parábola de Jesus, evitando atribuir-lhe sentidos fantásticos. Bom estudo!

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I. Interpretando a parábola dos dois filhos

  • O contexto da parábola

Apenas o evangelista Mateus registrou essa parábola de Jesus, contada não aos seus discípulos, mas aos “chefes dos sacerdotes e aos líderes religiosos do povo” (v. 23), que incluía também os fariseus (v. 45). Estes eminentes religiosos de Israel questionavam a autoridade de Jesus (v. 23) e recusaram crer na mensagem de João Batista que apontava para Jesus como o ungido de Deus (conf. Mt 3.11-17), mesmo que essa mensagem de João tenha sido confirmada mediante os milagres que Jesus operava (v. 32; Jo 10.38).

Aos que perguntaram qual a fonte da autoridade de Jesus, o Senhor lhes respondeu com outra pergunta que eles não souberam (ou não quiseram) responder: “De onde era o batismo de João? Do céu ou dos homens?” (v. 24). Visto que não deram resposta a Jesus, ficaram também sem uma resposta direta ao seu questionamento, e ainda foram confrontados por Cristo com as parábolas dos dois filhos (vv.28-31) e dos maus lavradores (vv. 33-44). Estas parábolas falam:

(1) da recusa deliberada dos destacados religiosos de Israel em aceitar a mensagem do reino pregada por João Batista e confirmada em Jesus (a parábola dos dois filhos)

(2) da condenação reservada para aqueles que persistirem lançando ofensivas contra o Filho de Deus (a parábola dos lavradores maus)

A parábola dos dois filhos é muito simples e direta, e sua interpretação não requer muito esforço ou discussão. É a parábola de um pai que se dirige aos seus dois filhos e lhes faz o mesmo pedido: “vá trabalhar hoje na vinha” (v. 28). Tanto as respostas imediatas como as ações de cada filho são diferentes: o primeiro filho disse “não quero”, mas “mudou de ideia e foi” (NVI); enquanto que o segundo filho respondeu prontamente “sim, senhor!”, mas não foi trabalhar.

  • A posição dos pecadores na parábola

O próprio Jesus identifica os “publicanos e meretrizes” (v. 31) com o primeiro filho da parábola, que a despeito da imediata negação irrefletida à vontade do pai, arrependeu-se mais tarde e finalmente obedeceu.

O especialista em Novo Testamento, Dr. Craig Keener, observa que os publicanos e as prostitutas eram vistos pelos religiosos como não pertencentes ao judaísmo praticante [1]. A princípio não manifestaram o desejo de obedecer a mensagem de João Batista, mais tarde, porém, lamentaram sua recusa a atenderam ao chamado do Pai.

Nas palavras de Jesus (v.29), o primeiro filho da parábola disse “não quero. Mas, depois, arrependendo-se, foi”. O verbo grego é metameletheis, que, segundo o professor Richards, significa “sentir muito, lamentar” [2]. Ou seja, este filho sentiu uma profunda tristeza em seu coração por haver recusado o chamado de seu pai, e desejando reparar a grosseria com que tratou seu genitor, foi ao trabalho na vinha. Esta é “a tristeza segundo Deus [que] opera arrependimento” (2Co 7.10). Como já vimos na parábola do fariseu e do publicano orando no templo, a contrição e o arrependimento no coração do publicano renderam-lhe a justificação da parte de Deus (Lc 18.13,14). Davi bem exclamou em oração: “a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Sl 51.17).

Publicanos e prostitutas estavam ponderando a mensagem de João Batista em seus corações, sentindo o peso de seus pecados, lamentando sua recusa de outrora, mas agora voltando-se para Deus e tomando parte no Seu reino. Zaquel recebendo Jesus em sua casa (Lc 19.1-10) e a mulher pecadora que ungiu a Jesus na casa de Simão, o fariseu (Lc 7.36-50), são exemplos vivos desta parábola. Publicanos e prostitutas eram contados entre os mais reprováveis pecadores naquela época, entretanto, Jesus nos dá essa garantia: “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37).

  • A posição dos religiosos na parábola

O segundo filho da parábola representa os eminentes religiosos com os quais Jesus disputava, visto que eles “não se arrependeram nem creram” (v.32), embora fizessem profissão oral de obediência ao Pai. Da boca pra fora demonstravam prontidão – “Sim, senhor!” (v. 30) –, mas na hora de colocarem em prática esta promessa, eles se achavam em falta. Era uma profissão de fé inoperante!

Boyer diz que ambos os filhos da parábola tinham falhas: um era hipócrita (o segundo filho, que prometeu ir e não foi), o outro era grosseiro (o primeiro filho, que respondeu rispidamente ao pai) [3]. De fato, a hipocrisia era uma marca destes religiosos que questionavam a autoridade de Jesus. O próprio Cristo disse que eles “dizem e não fazem” (Mt 23.3).

O problema de Jesus nunca foi com os pecadores, mas com os religiosos hipócritas cujo discurso não era condizente com a prática, e que estabeleciam barreiras em seus próprios corações contra a mensagem do Evangelho e as maravilhosas obras de Cristo que estavam sendo manifestas diante deles. Em sua recusa deliberada à mensagem de Jesus, estavam ficando de fora do reino, ou, no mínimo, demorando-se para entrar nele, enquanto que os publicanos e as meretrizes que lamentavam os seus pecados e se voltavam para Jesus, estavam entrando na frente deles. Os sábios e entendidos resistiam e ficavam de fora (Lc 7.30), enquanto que os “pequeninos” (Mt 11.25) e os “cansados e oprimidos” (Mt 11.28) aceitavam e adentravam ao reino, desfrutando consequentemente de todas as suas bençãos!

II. Quando as palavras não se coadunam com a prática

Na parábola, ambos os filhos tiveram práticas diferentes de seus discursos. Todavia, para Deus é melhor aquele que nega a princípio com a boca, mas depois de reflexão e arrependimento obedece à Sua vontade, do que aquele que a princípio aparenta disposição, mas ao final desiste de obedecer e recusa a vontade divina. Mais do que palavras, Deus quer ver em nós ação!

Esta parábola de Jesus estabelece os seguintes contrastes:

(a) discurso versus prática
(b) expectativa versus realidade
(c) aparência versus essência

Os publicanos e pecadores tinham prática (ação), realidade e essência; ao passo que os religiosos tinham apenas discurso, expectativa e aparência. Publicanos e pecadores estavam “indo trabalhar na vinha” – “a obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6.29) –, enquanto que os religiosos permaneciam no acômodo de sua religiosidade vã.

Comentando esta parábola, William MacDonald observa que esta cena continua se repetindo em nossos dias: “pecadores notórios recebem o evangelho com mais facilidade que os com a aparência de falsa piedade” [4]. Enquanto os religiosos olham com desprezo para os pecadores, Deus os olha com prazer visto que “João veio para lhes mostrar o caminho da justiça… os publicanos e as prostitutas creram” (v. 32). Os que têm o discurso de piedade, como o segundo filho, são reprovados; os que têm atitudes piedosas, como o primeiro filho, são aprovados por Deus! Quanto a nós, que temos: discurso piedoso ou vida piedosa?

III. Um chamado para fazer a vontade de Deus

A pergunta de Jesus aos religiosos que o confrontavam provocava-os a uma séria reflexão: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v. 31). A resposta que deram depunha contra eles mesmos: “o primeiro [filho]”. Ou seja, faz a vontade de Deus não os que assumem um compromisso verbal com Ele, mas os que obedecem ao seu chamado! De fato, “com a boca se faz confissão para a salvação”, mas tal profissão só tem valor para Deus se precedido por uma mudança no coração, “visto que com o coração se crê para a justiça” (Rm 10.10).

  • A fé genuína é a fé obediente

Noutro momento Jesus já havia dito aos seus discípulos: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21). Sendo assim, esta parábola de Jesus deve produzir reflexão e temor naqueles que estão acomodados à sua profissão de fé feita outrora, mas que não estão na prática fazendo a vontade de Deus. “Examine-se cada um a si mesmo”!

Também aos discípulos foi que Jesus disse: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15.14). Portanto, ninguém se sinta demasiadamente seguro em sua profissão de fé, se ela não for acompanhada de obediência. O filho que fez a vontade do pai foi aquele que “foi”, isto é, aquele que moveu-se na direção da obediência! É no caminho da obediência que se encontra a porta de entrada para o reino dos céus! A fé obediente crê e age! A fé inoperante diz que crê sem ação, não passando de um mero assentimento na mente, que não se traduz em mudança de atitude.

  • Um chamado urgente

“Filho, vá trabalhar hoje na vinha” foi o chamado do pai aos dois filhos e que demonstra a urgência do trabalho. Não era um serviço para amanhã ou depois, mas para hoje!

Hoje é o dia do trabalho (Jo 5.17; 9.4); hoje é o dia da salvação (Lc 19.9; 2Co 6.2); o Espírito de Deus fala aos corações hoje (Hb 4.7); “Hoje me convém repousar em tua casa”, disse Jesus à Zaquel, o publicano (Lc 19.5). Visto que não temos domínio sobre o dia de amanhã e em face da efemeridade da vida, não podemos protelar decisões importantes. O chamado de Deus é para hoje! Não sejamos indiferentes ao chamado espiritual de nosso Deus, que nos ordena crer e perseverar, trabalhar e servir. É hoje que Deus nos quer em sua vinha! Que possamos com sinceridade e alegria cantar:

“Eu quero trabalhar pra o meu Senhor,
Levando a Palavra com amor,
Quero eu cantar e orar e ocupado quero estar,
Sim, na vinha do Senhor” [5]

Conclusão

Ao final do estudo desta parábola, devemos nos perguntar: minha profissão de fé é condizente com minha conduta de vida? De fato, já ingressei no reino de Deus e estou agindo como um membro deste reino? Há tristeza em meu coração pelos pecados cometidos? Reparei minhas palavras arrogantes ditas irrefletidamente ao Senhor e agora me pus a fazer a sua vontade? Que Deus nos ajude a responder afirmativamente a todas estas perguntas e perseverar em seu reino até a consumação de todas as coisas!


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Referências
[1]
 Craig Keener. Comentário histórico-cultural da Bíblia – Novo Testamento, Vida Nova, p. 109
[2] Lawrence O. Richards. Comentário histórico-cultural do Novo Testamento, CPAD, p. 68
[3] Orlando Boyer. Espada Cortante 1, CPAD, p. 395
[4] William MacDonald. Comentário Bíblico Popular – Novo Testamento, Mundo Cristão, p. 80
[5] hino n° 115 da Harpa Cristã, letra/tradução de José T. De Lima



Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.

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