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Lição 7 – Perdoamos porque fomos perdoados

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 7 do trimestre sobre "As Parábolas de Jesus"


Perdoamos porque fomos perdoados

A lição de hoje aborda um dos temas mais importantes da fé cristã quanto aos relacionamentos interpessoais. Falaremos do tema PERDÃO. Um tema de sabor doce e amargo ao mesmo tempo. Quem tem algo a perdoar a alguém sabe como é amargo; quem já perdoou verdadeiramente, sabe como é doce! A partir do texto e contexto da parábola do credo incompassivo, registrada em Mateus 18, analisemos quais as lições de Jesus para seus discípulos de todas as eras e de todos os lugares sobre o quesito perdão. Bom estudo!

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I. Interpretando a parábola do credor incompassivo

Jesus, o mestre por excelência, conta esta parábola do credor incompassivo (isto é, sem compaixão), para oferecer uma vívida ilustração de sua resposta dada a Pedro quanto à incessante oferta de perdão a um irmão ofensor. Entendamos, então, antes de tudo o contexto do diálogo que motivou esta parábola.

  • O contexto imediato da parábola

No início do capítulo 18 de Mateus (vv. 1-6; conf. Mc 9.33-37) encontramos os discípulos disputando entre si sobre quem seria o maior no Reino dos céus. O texto não nos diz expressamente, mas é possível com muita razoabilidade pensarmos nos discípulos, no meio dessa disputa, se ofendendo, se atacando, falando dos defeitos uns dos outros, na tentativa de cada um colocar-se como o nome mais sugestivo o cargo de “primeiro ministro do Reino dos céus”.

Jesus cessa aquela disputa centralizando a figura de uma criança (figura de menor importância na pirâmide social), demonstrando como devemos despojar-nos de pretensões arrogantes, apercebermo-nos de nossa pequenez, e reconhecermos a nossa dependência do outro, se quisermos entrar no Reino dos céus. Aliás, Jesus coloca o arrependimento como ponto de partida para entrar neste reino (v. 3). Um corinho antigo, que eu costumava cantar quando criança, e que aplica bem esse ensino de Jesus sobre interdependência era este:

Eu preciso de você,
Você precisa de mim,
Nós precisamos de Cristo
Até o fim!

Jesus também, em seguida, demonstra como os mais pequeninos membros do Reino são igualmente valiosos para o Pai, de modo que receber uma criança em nome de Jesus é receber o próprio Jesus (v. 5), enquanto que desprezar um pequeno e frágil membro do reino é colocar-se debaixo de terrível condenação (vv. 6-10).

A essa altura, porém, os ânimos dos discípulos já deviam estar machucados, pela disputa que eles mesmos ergueram lá atrás. É sempre assim: a contenda deixa feridas que precisam ser tratadas (Fp 4.2,3). Em razão disso, Jesus aproveita a oportunidade e emenda uma lição sobre o perdão e a reconciliação: “Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão” (Mt 18.15). Esta era uma lição que até mesmo os apóstolos precisavam aprender. Como dizia Tiago, “Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis” (Tg 5.16). A confissão seguida de intercessão desemboca em restauração!

Os membros da igreja não estão isentos de pecarem uns contra os outros, mas devem sempre ter a singeleza das crianças para se desculparem uns aos outros e se reconhecerem dependentes uns dos outros. Quando duas ou três pessoas se reúnem para confessarem mutuamente seus pecados, se reconciliarem e orarem umas pelas outras, ali está a presença restauradora de Cristo: “ali estou no meio deles” (Mt 18.20).

  • A dúvida que originou a parábola

Assim, compreendido o contexto, chegamos ao texto e à pergunta de Pedro que vai motivar Jesus a contar a parábola do credor incompassivo (vv. 21-35). É como se Pedro tivesse dito: “Senhor, já que estás falando de perdão e reconciliação entre irmãos, deixe-me lhe perguntar: até quantas vezes devo perdoar meu irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?”. A pergunta de Pedro esconde uma tese equivocada: o perdão não deve ser dado indefinidamente, mas com limite. Ao menos duas possíveis razões Pedro tinha em mente para oferecer o “sete” como um número generoso para a oferta de perdão ao irmão ofensor:

1° Possibilidade – Como os rabinos judeus entendiam que o limite do perdão para os pecados reincidentes era de até três perdões (talvez devido a uma interpretação literalista de Amós 1.3,6,9; 2.1,4,6), então pode ser que Pedro imaginasse que subir este número para sete (quem sabe, um perdão por dia), estaria sendo mais generoso e excedendo-se aos “escribas e fariseus” (Mt 5.20), fazendo-se assim digno de louvor em sua oferta de perdão abundante.

2° Possibilidade – Talvez Pedro tivesse pensado não no que os rabinos ensinavam, mas nas próprias palavras de Cristo, que noutro momento falou dos “sete perdões”, quando disse: “…Se o teu irmão pecar contra ti… sete vezes no dia e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: arrependo-me, perdoa-lhe” (Lc 17.4). Pedro pode ter ligado um discurso ao outro e concluído precipitadamente que Jesus estava a ensinar um número exato para o limite do perdão, e que este novo número seria mais generoso que o dos rabinos. Não era raro que os discípulos entendessem as palavras de Jesus como literais, quando ele na verdade estava a ensinar através de figuras de linguagem (por exemplo, veja o caso do “fermento dos fariseus” – Mt 16.6-12).

  • Não há cota para o perdão

O que quer que Pedro tivesse em mente quando calculou o número sete como limite razoável para o perdão ao transgressor reincidente, Jesus corrige e estabelece a doutrina do perdão ilimitado ao propor: “Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete” (18.22). Os exegetas estão divididos sobre o significado da expressão “setenta vezes sete” no texto grego. A.T. Robertson admite: “Não está claro se esse linguajar significa setenta e sete ou quatrocentas e noventa vezes” [1]. É curioso perceber, por exemplo, que a versão bíblica NTLH traduziu por “setenta e sete” ao invés de “setenta vezes sete”, que é a tradução mais comum.

Seja como for, esse número não pretende também ser uma conta fechada, que delimita a quantidade de misericórdia a ser oferecida ao próximo, quer seja setenta e sete vezes ou setenta vezes sete, isto é, quatrocentos e noventa. Não há cota de perdão na Bíblia! Como interpreta muito bem o Dr. Craig Keener, o que Jesus quer dizer com essa expressão hiperbólica (isto é, expressão de exagero proposital) é: jamais guarde rancor [2], perdoe sempre, tantas vezes quantas seu perdão for pedido! Esta é a mensagem central da parábola que Jesus conta a seguir.

  • Uma Lição sobre a dinâmica do reino dos céus

Já vimos que as parábolas de Jesus tencionam ilustrar o funcionamento e a dinâmica das relações no reino espiritual – Mateus frequentemente fala de “reino dos céus” em vez de “reino de Deus”, mas o sentido geralmente é o mesmo. Atentar para esta parábola é buscarmos entender um pouco de como o rei se relaciona com seus servos e de como os servos devem se relacionar entre si quando na questão da ofensa/perdão.

Bem, como temos aprendido desde a primeira Lição, as parábolas não precisam ser interpretadas em cada detalhe, visto que todo o enredo é construído para falar de uma (ou algumas) verdade(s) central(is). Querer prender-se nos detalhes das parábolas e atribuir-lhes significado espiritual ou moral (como mais apropriadamente se faz com as alegorias) é ir além dos propósitos para que elas foram contadas e criar sentidos fantásticos, ou melhor, fantasiosos para o texto bíblico. Captemos então o cerne da parábola, que nos bastará!

II. Em Cristo, Deus pagou as nossas dívidas

Na parábola de Jesus, um servo do rei foi chamado a prestar contas diante dele. Keener diz que “‘servos’ talvez se refira, nesta passagem, aos príncipes livres das províncias, que atuavam como coletores de impostos do rei em várias regiões e também eram seus vassalos” [3]. Um dia, todos nós, ricos e pobres, escravos ou livres, haveremos de prestar contas diante de Deus do que pensamos, dizemos, fizemos ou deixamos de fazer, quer seja no tribunal de Cristo (2Co 5.10), quer seja no juízo final (Ap 20.11-13)! São mui sábias as palavras do pregador: “Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec 12.14).

  • A imensurável dívida

No “livro-caixa” do rei viu-se que um de seus servos devia-lhe dez mil talentos. É impossível precisar o valor exato em moeda corrente dessa grande medida de peso usada no mundo antigo, pois o talento nos tempos bíblicos era uma medida de peso (de cobre, prata ou ouro), e que variava entre 34 a 42 quilos. O professor ou aluno perceberá que os comentaristas bíblicos trazem diferentes valores (entre milhões e bilhões) para o valor total em moeda corrente destes dez mil talentos [4]. Todavia, muitos expositores trabalham com a tese de que este talento a que Jesus se refere equivaleria, cada unidade, a seis mil denários ou dracmas, isto é, ao pagamento por seis mil dias de trabalho [5]. Cada talento! Se assim for, então a soma dos dez mil talentos chegaria a 60 milhões de dias de trabalho (10 mil vezes 6 mil).

Se tentarmos fazer uma aplicação desse valor em moeda corrente do nosso país, e tomando o salário mínimo como base para se calcular uma diária de trabalho (954,00/30), então teríamos uma dívida estupenda de cerca da R$ 1.908.000.000,00 (um bilhão novecentos e oito milhões de reais!). Definitivamente uma dívida impagável! Keener cita o historiador judeu Flávio Josefo que diz que “o tributo anual na Galileia e na Pereia, sob o rico Herodes, era de apenas duzentos talentos, acrescidos, talvez de mais seiscentos vindos de outros territórios da Judeia” [6]. A dívida desse servo era maior que toda a riqueza do governo de Herodes!

O próprio Jesus, na oração modelo, já havia tomado o pecado na figura de uma “dívida”, quanto nos ensinou a orar ao Pai: “perdoa as nossas dívidas…” (Mt 6.12). E é claro que na parábola em questão talvez Jesus apenas tenha exagerado propositalmente a dívida deste servo (certamente nenhum servo tenha devido tanto a seu rei como vemos aqui), para realçar uma verdade espiritual que somos chamados a perceber: a nossa imensurável dívida com Deus, a dívida do pecado, que jamais poderíamos pagar, ainda que quiséssemos!

  • A graça do perdão real

Ameaçado de escravidão, junto com toda a sua família, e da venda de todos os seus bens a fim de que o rei não obtivesse perca total, o servo, prostrado, suplica longanimidade ao rei, sob a promessa: “tudo te pagarei” (18.26). O rei sabia que seria impossível ao servo cumprir esta promessa, dado o valor altíssimo da dívida, então, “movido de íntima compaixão”, solta o servo e lhe perdoa a dívida. Observe: movido de íntima compaixão… Ou seja, não foi um perdão resignado, contrariado, mas fruto de um sentimento de misericórdia que vinha do íntimo do coração do rei. A conta foi zerada! A dívida era com o rei, logo o rei podia cancelá-la a seu bel prazer.

Quando olhamos para a nossa dívida com Deus, e o peso da cobrança que certamente viria, ficamos a nos perguntar: “que daremos nós ao Senhor?”. O salmista é assertivo: “Homem algum pode redimir seu irmão ou pagar a Deus o preço de sua vida, pois o resgate de uma vida não tem preço. Não há pagamento que o livre” (Sl 49.7,8). Assim sendo, resta-nos somente suplicar misericórdia a Deus, e “beijar o Filho para que ele não se ire” (Sl 2.12), e orar humildemente como Jesus ensinou, suplicando ao Pai: “perdoa as nossas dívidas”.

  • O maravilhoso perdão de Cristo

Orlando Boyer leva-nos a refletir seriamente sobre as três dimensões da nossa dívida espiritual (altura, largura e profundidade):

“A dívida do pecado é tão grande que o mais rico nunca jamais pode pagá-la. Um só pecado é da altura dos céus, porque atinge a natureza de Deus e o seu trono; é tão profundo como o inferno que leva os seus adeptos; tão comprido como a eternidade, porque suas consequências não têm fim. Devemos multiplicar tudo isso pelo número de pecados cometidos pelo número de horas que passamos sem amar a Deus, se quisermos ter uma ideia da enorme dívida de nosso pecado” [7].

Mas assim como o servo que não podia pagar recebeu o perdão do rei e viu-se livre da dívida, nós também fomos por Deus, em Cristo crucificado (Ef 4.32), perdoados de nossos pecados, nós os que agora cremos nele. O apóstolo Paulo nos diz: “…Deus os vivificou juntamente com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz…” (Cl 2.13,14). Mas desde os tempos antigos já se tinha convicção desta benevolência divina, pela qual os pecados dos homens são perdoados generosamente: “Quando os nossos pecados pesavam sobre nós, tu mesmo fizeste propiciação por nossas transgressões” (Sl 65.3, NVI).

Foi por “íntima compaixão” (18.27) que Deus concedeu-nos graciosamente o perdão. Ele não nos perdoa com raiva, insatisfeito, “lançando em rosto” (Tg 1.5), antes o faz com prazer, como pai que recebeu o filho prazerosamente ao retornar para casa! E não nos nega misericórdia sempre que nos voltamos para Ele contritos de coração e arrependidos pelo mal que lhe fizemos, “porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade dura de geração em geração” (Sl 100.5).

III. Uma vez perdoados, agora perdoamos

  • Uma dívida irrisória de nossos irmãos, se comparada a nossa dívida com Deus

Na parábola, o servo perdoado pelo rei encontrou um de seus conservos, isto é, outra pessoa que como ele servia ao rei, mas que lhe devia cem dinheiros (ou “denários”). Esta dívida, correspondente a cem dias de trabalho, era irrisória se comparada à primeira. Se usarmos o mesmo método para calcular esta dívida do conservo, baseando-nos no salário mínimo atual (R$ 954,00/30), teríamos cem diárias de 31,80 reais, ou seja, uma dívida de R$ 3.180,00 (três mil cento e oitenta reais). Se a dívida do servo com o rei era impagável, o mesmo já não se pode dizer desta dívida do conservo com o servo. Reduzindo-se os juros, parcelando a dívida, e sob trabalho regular, a dívida poderia ser saldada.

Entretanto, como bem pontua Keener, “o servo perdoado, em vez de internalizar o princípio da graça, decidira tornar-se, a partir de então, impiedosamente eficaz na cobrança de seus devedores” [8]. Não fazendo caso do pedido de clemência do seu conservo (que foi o mesmo pedido feito pelo servo ao rei – comparar vv. 26 e 29), e ignorando que há pouco havia sido contemplado por um grandioso ato de generosidade do rei e que deveria inspirar-lhe também a generosidade em seus negócios particulares, o servo pôs-se a tortura-lo (v. 28) e, finalmente, jogou-o na prisão (v. 30).

A notícia do gesto agressivo do servo logo foi levada ao rei, que, “indignado” (v. 34), repreendeu-lhe por não agir conforme a generosidade recebida (mesmo em esfera secular, espera-se que quem recebeu o bem, ofereça o bem a outro – a famosa “corrente do bem”), chamou-o de “servo malvado” (v. 32) e revogou o perdão dado outrora, condenando finalmente o servo à prisão e ao tormento!

  • Para quem é esta parábola?

A essa altura, acompanhando o desfecho da história contada por Jesus, os discípulos mais intempestivos como Pedro, Tiago e João, certamente já estavam pensando consigo: “Que miserável! Que avarento desgraçado! Foi perdoado de uma dívida imensa, mas não quis perdoar uma merreca que o outro lhe devia! Bem feito que o rei lhe tenha trancafiado na prisão, e o entregue aos atormentadores!”. Mas o desfecho da história de Jesus (“assim vos fará também o Pai…”, v. 35) tem a mesma finalidade do confronto de Natã com Davi, quando o profeta contou ao rei a parábola sobre o homem rico que tomou a ovelhinha do homem pobre para fazer uma refeição para um visitante que recebera em sua casa: “Este homem é tu” (2Sm 12.7). Ou seja, esta não é uma parábola sobre “eles”, mas sobre “nós”; não é uma mensagem pra quem ficou em casa e não compareceu ao culto, mas para quem está ali presente ouvindo a pregação!

O comentarista R. T. France explica que “à luz da graça incalculável de Deus em relação a nós, é ridículo e também uma grande maldade de nossa parte nos recusarmos a perdoar os outros” [9]. Deus nos perdoou de uma dívida que jamais poderíamos pagar, como o rei perdoou aqueles dez mil talentos que o servo lhe devia; não devemos nós, internalizando esta graça divina, demonstrarmos tal espírito de generosidade ofertando o perdão aos nossos ofensores, ainda mais quando são pecados reparáveis, como aqueles cem denários que o conservo devia?

  • Receber perdão, mas não oferecer perdão, é graça em vão!

Os que receberam a graça de Deus, mas não comunicaram esta graça com os que lhe ofenderam, receberam a graça em vão (2Co 6.1), e no fim serão castigados com o tormento eterno, já que corações não perdoados por Deus não podem desfrutar de comunhão eterna com ele! Ralph Earle comenta que “Aquele que se recusa a perdoar fecha a porta do céu em seu próprio rosto. Nenhum espírito que não perdoa pode entrar ali. Independentemente daquilo que for feito contra nós, devemos perdoar – completamente e para sempre” [10].

E o perdão não é mero discurso, não é uma desculpa verbal apenas. Nas palavras de Jesus, “se do coração não perdoardes” (18.35) quer dizer que a oferta de perdão deve vir do mais profundo do nosso ser, não apenas da boca pra fora. O perdão que sai pela boca, mas continua no pedestal do coração, produzindo raiva, antipatia, menosprezo e outros sentimentos amargos, não é perdão! E, portanto, diante de Deus a ofensa continua de pé. O Deus que lança “todos os seus pecados nas profundezas do mar” (Mq 7.19) e que diz “jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” (Hb 10.17), espera que nós igualmente sepultemos a ofensa de nosso irmão a quem perdoamos, não revisitando-a desnecessariamente para reavivar o sentimento mau.

Como diz Boyer, os que de fato perdoaram devem “enterrar a ‘sua arma’; [e] precisam esquecer também o lugar onde enterram as machadinhas. Se levantar cada vez um marco, em lugar de enterrar as suas armas, é porque tem a ideia de voltar a desenterra-las, com qualquer repetição da afronta” [11]. Ao perdão, ofereçamos altos memoriais; às ofensas, ofereçamos túmulos sete palmos abaixo do chão! Se o sangue de Cristo de fato e verdade lavar nosso coração e mente das mágoas, ainda que as lembranças da ofensa sofrida venham esporadicamente à mente (afinal, perdão e amnésia não são a mesma coisa), elas não mais nos atormentarão, visto que agora, a mente do crente perdoador é a mente de Cristo! (1Co 2.16) Não guarda rancor, mas apenas “entranháveis afetos e compaixões” (Fp 2.1).

  • Perdoar nem sempre é fácil, mas é sempre possível

Claro que na caminhada da vida, haverá ofensas “mais fáceis” de se perdoar que outras. Todos hão de concordar que perdoar um pisão no pé não é o mesmo que perdoar uma traição de um amigo ou de um cônjuge. Entre os provérbios encontramos um que admite essa realidade: “O irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte” (Pv 18.19). C. S. Lewis dizia que “todos dizem que o perdão é um ideal belíssimo, até terem algo a perdoar” [12]. Mas nesse sentido, Cristo é ao mesmo tempo nosso referencial de amor sacrificial, como também a fonte da nossa capacidade de perdoar a quem nos ofendeu, mesmo as maiores ofensas! Volto então para Boyer: “Se achar difícil perdoar, faça por amor de Cristo”.

O amor de Cristo derramado em nossos corações (Rm 5.5), tem essas características: “é sofredor, é benigno… Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha…” (1Co 13.4,7,8). Também não foi fácil para Deus oferecer seu Filho à vergonha, ao desprezo, à tortura e à morte cruenta que ele sofreu em nosso lugar, para com seu sangue comprar o direito de perdoar os pecadores; mas Ele o fez! Ele o entregou, por amor ao mundo (Jo 3.16)! Se olharmos para Cristo crucificado, encontraremos força para perdoar nossos ofensores. Ao amor, estas coisas não são impossíveis, já que é sua especialidade ajudar-nos a perdoar!

Conclusão

A Lição de hoje é muito prática: perdoar sempre. Nas palavras inspiradas do apóstolo Paulo, “Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4.32). Tendo em mente duas coisas: 1) fomos perdoados graciosamente por Deus, que espera que reproduzamos em nosso dia a dia esta atitude de generosidade (a bondade e a benignidade são fruto do Espírito em nós – Gl 5.22); 2) se não perdoarmos aos homens as ofensas que fizerem contra nós, Deus também não nos perdoará de nossas ofensas, podendo até mesmo cancelar o perdão nos dado outrora, quando então nossas justiças é que seriam sepultadas da memória de Deus. Só pode orar ao Pai dizendo “perdoa as nossas dívidas”, quem puder diante do Pai dizer “como perdoamos aos nossos devedores”. Reflitamos nisso com sinceridade, pois, como dizia Boyer, embora o diabo diga que esta parábola não é para nós, o Espírito Santo diz: sim, tu és o homem!

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Referências

[1] A.T. Robertson. Comentário Mateus e Marcos à luz do Novo Testamento grego, CPAD, p. 208
[2] Craig Keener. Comenário histórico cultural da Bíblia: Novo Testamento, Vida Nova, p. 100
[3] Craig Keener. Op. cit., p. 100
[4] Por exemplo, o comentarista da Lição fala de um valor equivalente a “dez milhões de dólares”; já o erudito pentecostal James Shelton, no subsídio que inclusive está na Revista do Professor, fala de “uma dívida na casa dos bilhões de dólares”.
[5] exemplos de comentaristas que usam a tese de que cada talento equivalia a 6 mil dias de trabalho: Robertson [p. 209]; Keener [p. 100]; Radmacher, et. al., [p. 55]
[6] Craig Keener, Op. cit., p. 101
[7] Orlando Boyer. Espada Cortante 1, CPAD, pp. 384,5
[8] Craig Keener. Op. cit., p. 101
[9] R.T. France. in Comentário Bíblico Nova Vida, Nova Vida, p. 1396
[10] Ralph Earle. in Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, CPAD, p. 65
[11] Orlando Boyer. Op. cit., p. 384
[12] C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples, Martins Fontes, p. 152



Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.

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