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Lição 4 – A função social dos sacerdotes

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 4 do trimestre sobre "Adoração, Santidade e Serviço"


Lição 4 - A função social dos sacerdotes

Os levitas estavam divididos em três classes: levitas, sacerdotes e sumos sacerdotes. Na Lição anterior já vimos as funções dos levitas (homens assistentes do culto) e dos sumos sacerdotes (autoridades religiosas superiores). Hoje, nos debruçaremos sobre a função dos sacerdotes, especialmente no que concerne às suas atribuições sociais ou comunitárias. Como destaca Christopher Wright, “os sacerdotes eram pessoas bastante ocupadas no Israel do AT! Além de seus deveres no santuário e de serem professores da lei, também atuavam como inspetores de saúde pública” [1]. É extremamente importante que alunos e professores estejam preparados para esta aula, tendo lido ao menos os capítulos 13 e 14 de Levítico. Bom estudo!

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I. Funções clínicas

O porquê do acúmulo destas funções clínicas, sanitaristas e jurídicas por parte dos sacerdotes de Israel? A nota da Bíblia de Estudo Pentecostal é digna de ser mencionada aqui:

Os caps. 11 – 15 [de Levítico] expressam a solicitude de Deus pela saúde física e bem-estar do seu povo. Os povos antigos, vizinhos de Israel, nada sabiam a respeito de higiene, saneamento, a importância de lavar-se, a prevenção de doenças infecciosas, nem dispensavam cuidados adequados aos pobres e enfermos. As leis de Deus promoveram o interesse por essas coisas e predispuseram o povo a uma vida santa e a considerar que Deus é santo” [2]

Doenças de pele no mundo antigo

A Bíblia menciona várias categorias de problemas relacionados com doenças de pele. Geralmente a Bíblia não faz distinção entre elas, como a medicina moderna o faz. Então é comum que a palavra lepra na Bíblia seja usada para designar uma diversidade de doenças na pele, como:

  • Feridas purulentas ou com fluxo (Lv 21.20);
  • Sarna (Dt 28.27), doenças causadas por infestação de fungos (e.g., a infecção cutânea), eczema e doenças parasitárias (e.g., escabiose);
  • Furúnculos, erupções da pele e/ou inchaços (Ex 9.9,10; Lv 13.2; Jó 2.7; Is 38.21);
  • Verrugas (Lv 22.22)
  • A doença tradicionalmente interpretada como “lepra” (Nm 12.10; 2Cr 26.19).

Lepra e pecado

Quando alguém sofria de uma doença da pele, significava que estava cerimonialmente impuro, mas não necessariamente que estava em pecado. A doença na pele não era necessariamente uma indicação do castigo de Deus, nem a impureza física para a adoração significava falha moral ou de caráter.

Em certos momentos, porém, Deus decidiu causar tais doenças como consequência de pecados específicos (por exemplo, o faraó, em Ex 9.8-12; Miriã, em Nm 12.10; Uzias [ou Azarias], em 2Re 15.5). Como destaca Charles Ryre [3], “lepra” era uma termo derivado de um radical que significa “golpear”, e quando encarado como um golpe de Deus, era tido como detestável e associado a estigmas e preconceitos, sugerindo fortemente que talvez constituísse uma figura do pecado (Is 1.6; Sl 51.7).

Isolamento social

Os leprosos eram separados da família e dos amigos e retirados do acampamento. Proteger a família da possibilidade de contágio bem como reafirmar a santidade e pureza necessários ao povo do Senhor (e evitar o contato do impuro com as coisas santas de Deus), eram as principais razões para esse isolamento. O texto bíblico é contundente:

“Quem ficar leproso, apresentando quaisquer desses sintomas, usará roupas rasgadas, andará descabelado, cobrirá a parte inferior do rosto e gritará: ‘Impuro! Impuro!’. Enquanto tiver a doença, estará impuro. Viverá separado, fora do acampamento” (Lv 13.45,46).

Uma vez que os sacerdotes eram responsáveis pela saúde de todo o arraial, era deles a tarefa de expulsar ou readmitir os leprosos. Se a lepra de alguém aparentava ter desaparecido, apenas o sacerdote poderia julgar se a pessoa estava realmente curada.

Na Bíblia, a lepra costuma ser uma ilustração do pecado, por ser este contagioso, destrutivo e conduzir à separação do homem e Deus, impedindo-o de oferecer adoração a Deus.

Rituais de purificação

Levítico 14 descreve os rituais de purificação, não rituais de cura. Ou seja, são rituais para reingresso da pessoa que outrora estivera enferma. Não há instruções quanto ao tratamento médico dos leprosos. O ritual complexo de purificação de um leproso, após diagnóstico de cura, envolvia duas aves, uma a ser morta como símbolo de purificação e a outra a ser como símbolo da liberdade recém-encontrada pelo indivíduo (v.4-7); as outras partes do ritual eram a raspagem e lavagem (v. 8-9) e a apresentação de ofertas pela culpa, pelo pecado, holocausto e de manjares (vv. 12,13,21). O sangue aplicado à orelha, à mão e ao pé significa que a pessoa se encontrava inteiramente purificada.

II. Funções sanitaristas

A palavra lepra (hb. tsara’at) abrange também pestilências que apareciam nas roupas ou nas casas. Nas roupas, a lepra provavelmente tratava-se não de doença, óbvio, mas de um fungo, mofo ou bolor; nas casas, era provavelmente uma forma de caruncho na madeira ou líquen contagioso na pedra.

Lepra nas roupas

Se a roupa tivesse manchas esverdeadas ou avermelhadas, o sacerdote tinha de retirar a peça por sete dias (Lv 13.47-59). Se a praga tivesse se espalhado, era leprosa. O artigo de vestuário tinha de ser queimado. Lepra roedora (v. 52) é “lepra maligna” (ARA) e, portanto, contagiosa.

Se a praga não tivesse se espalhado, a peça de roupa seria lavada e guardada por mais sete dias. Se não tivesse mudado de aparência, ou seja, cor, as áreas infectadas seriam queimadas. Se a praga tivesse se espalhado, a peça de roupa tinha de ser queimada. Se com a lavagem da roupa, a praga desaparecesse, a roupa era lavada de novo e declarada limpa (v. 58).

Uma alusão neotestamentária à lepra contagiosa, numa conotação espiritual, encontra-se em Judas 1.22,23: “Tenham compaixão daqueles que duvidam; a outros, salvem-nos, arrebatando-os do fogo; a outros ainda, mostrem misericórdia com temor, odiando até a roupa contaminada pela carne“. Ou seja, busquemos os pecadores, mas reprovemos até o menor vestígio de pecado, cuidando para que nós mesmos não venhamos ser infectados com a doença que procuramos curar. David Wheaton interpreta: Roupa sugere o efeito contaminador do pecado deles. Como o leproso cuja roupa ficava contaminada pela doença (Lv 13.34; 14.8), eles precisam ser considerados fonte de contamina e, por isso evitados” [4].

Lepra nas casas

Se houvesse dúvida quanto a ser lepra ou não nas casas, todas as mobílias deviam ser retiradas imediatamente da casa, para que não ficassem contaminadas e tivessem de ser destruídas. Riscas de cor verde ou vermelha seriam as marcas indicadoras de lepra.

Se estivessem presentes, a casa devia ser fechada por sete dias. Se a praga se espalhasse, as pedras contaminadas teriam de ser removidas para fora da cidade num lugar imundo. A casa seria raspada e as raspas levadas para fora. Então reconstruiriam a casa. Se a praga voltasse, a construção seria declarada imunda, demolida e os destroços levados para um lugar imundo. Todo aquele que entrasse na casa quando estivesse fechada seria imundo até à tarde.

Hoje, claro, estas leis cerimoniais não são mais necessárias. Nenhum religioso precisa ser chamado para averiguar deficiências numa obra de alvenaria. Chama-se o técnico em edificações, o engenheiro ou o pedreiro! Todavia, para a lepra da nossa casa espiritual, podemos contar sempre com o Sumo-Sacerdote, Médico por excelência e Salvador Jesus! O mofo do pecado somente o sangue de Jesus pode tirar! (1Jo 1.7)

III. Funções jurídicas

Além dos sacrifícios, do ensino da Lei e dos cuidados com a saúde e o bem-estar do povo, os sacerdotes também atuavam como juízes, constituindo uma espécie de suprema corte de Israel (Dt 17.8-13). Na verdade, quando em Israel ainda não havia juízes propriamente ditos, escribas nem reis ou administração pública, os sacerdotes estavam incumbidos de muitas tarefas. Ao mesmo tempo em que era um privilégio o ofício sacerdotal, era também carregado de muitas responsabilidades.

Nas cidades concedidas aos sacerdotes, eles estavam disponíveis para ajudar como juízes em casos extraordinariamente difíceis que estavam além da capacidade de decisão dos tribunais locais (Dt 17.8,9). A base de julgamento era a Lei do Senhor, o julgamento criterioso dos testemunhos ouvidos e, raramente, pelo uso do Urim e Tumim.

Alguns exemplos de ocupações jurídicas

  • Exigia-se que estivessem presentes com os anciãos da cidade nos casos de assassinato não solucionado, a fim de assegurar que se seguisse o procedimento correto para remover da cidade a culpa de sangue (Dt 21.1,2,5).
  • Quando um marido ciumento acusava a esposa de adultério secreto, ela tinha de ser levada ao santuário, onde o sacerdote realizava a cerimônia prescrita, na qual se apelava para o conhecimento do Senhor sobre a verdade da inocência ou da culpa da mulher, em busca do Seu julgamento direto (Nm 5.11-31).

Em todos os casos, o julgamento feito pelos sacerdotes ou pelos juízes designados tinha de ser respeitado; o desrespeito deliberado ou a desobediência incorria na pena de morte (Nm 15.30; Dt 17.10-13).

Conclusão

Todo cuidado de Deus com o povo hebreu se fazia necessário, ainda mais em vista de aquele povo, nos dias de Moisés e Arão, ser recém-fugitivo do Egito, necessitando assim de leis e orientações tanto para despir-se de velhas práticas pagãs, livrar-se de costumes perniciosos, precaver-se de doenças, males e perigos, bem como aprender a viver uma vida santa, pura e digna de um povo eleito por Deus. Somos hoje sacerdotes de Deus em Cristo Jesus, e nossa função é muito mais espiritual que social; não pesa sobre nós o dever de inspecionar lepra no corpo, em roupas ou casas alheias. Todavia, pesa sobre o nós a mui grande responsabilidade de dissiparmos as trevas e salgarmos este mundo pela pregação autêntica do Evangelho e pela conduta de vida pura e santa que glorifique a Deus (Mt 5.13-16). Deus continua zeloso, e exige zelo moral e espiritual do seu povo!

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REFERÊNCIAS

[1] Christopher Wright. Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, p. 219
[2] Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD), nota de rodapé, Lv 15.5
[3] Charles Ryre. Bíblia de Estudo Anotada Expandida (Mundo Cristão), nota de rodapé, Lv 13.23
[4] David Wheaton. Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, p. 2126



Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.

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