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Lição 8 – Encontrando o nosso próximo

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 8 do trimestre sobre "As Parábolas de Jesus"


Encontrando o nosso próximo

A parábola do bom samaritano é uma das mais conhecidas nos evangelhos e das mais pregadas. Todavia, é também uma das que mais sofrem nas mãos dos intérpretes e pregadores, quando se distanciam demasiadamente dos propósitos para que ela foi contada e registrada. Alegoricamente se pode atribuir muitos sentidos a ela, todavia, respeitado o contexto veremos que não temos direito de nos aventurar na explicação da parábola! Esta semana, na Escola Dominical, temos a grande oportunidade de meditar com mais profundidade nesta parábola e compreender as suas aplicações práticas para cada um de nós.

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I. Interpretação da parábola do bom samaritano

Antes de tudo é preciso novamente ressaltar que as parábolas não precisam serem interpretadas em cada um de seus detalhes. Infelizmente, alguns expoentes querem encontrar até mesmo significado espiritual para o animal citado nesta parábola. Como observa Craig Keener e nunca é demais lembrar, “os detalhes da parábola são parte da história; não têm o propósito de ser alegorizados” [1]. Outro ponto importante: partamos primeiro do contexto, para somente depois irmos à parábola propriamente e entendê-la corretamente nos limites estabelecidos pelo contexto.

  • O contexto da parábola

Em “certa ocasião, um perito da lei levantou-se para pôr Jesus à prova” (10.25, NVI). Não era novidade que Jesus fosse interpelado por outros intelectuais religiosos em seu tempo, nem também que os mais entendidos descrentes buscassem ocasião para por em xeque a autoridade do mestre Jesus. Todavia, como em todas as demais ocasiões, aquele que arma o laço é pego por ele! Os oponentes de Jesus nunca souberam fazer-lhe perguntas bem elaboradas e bem-intencionadas (às vezes, eram bem elaboradas, mas mal-intencionadas, o que as invalidava), mas Jesus sempre soube responde-los habilidosamente, deixando-os surpresos, e, não raro, humilhados.

Três falas do doutor da lei estão registradas no diálogo que antecede a parábola do bom samaritano. Primeiro uma pergunta de ataque, que suscita o confronto com Jesus; segundo, uma declaração que responde acertadamente à uma pergunta de Jesus, que aceitou o confronto e estabeleceu a Lei mosaica como ponto de partida para o diálogo; por última, uma pergunta defensiva (para usar os termos de Myer Pearlman [2]), quando buscava então justificar-se a si mesmo de uma possível acusação de que ele não estaria cumprindo a lei que demonstrava conhecer.

“Que farei para herdar a vida eterna?” – foi a pergunta do teólogo judeu. Admitimos que esta pergunta é melhor e mais pertinente do que perguntar “Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos?” (Mt 6.31). Quem faz estas últimas perguntas está preocupado apenas com o material e passageiro; quem faz a primeira pergunta está interessado no espiritual e eterno! Não é errado perguntar o que fazer para entrar no gozo eterno, desde que se entenda que esse acesso é por meio da salvação providenciada por Cristo e recebida gratuitamente por meio da fé, não das obras (Ef 2.8). De fato, há algo que precisamos fazer para ser salvos, mas, como destaca Tozer, “não se trata do ‘fazer’ do mérito – é o ‘fazer’ da condição” [3], e esta condição é “crer no Senhor Jesus” (Jo 3.16; At 16.31).

O problema mesmo era a motivação no coração do doutor, que não era das mais sinceras, já que ele estava “tentando” Jesus. Nas palavras do exegeta A.T. Robertson, “o espírito deste doutor da lei era mau. Ele queria armar uma cilada para Jesus”[4]. Jesus sabe não apenas interpretar nossas palavras, mas discernir as motivações que subjazem nelas! E suas respostas sempre vão de encontro a essas motivações, e não exatamente ao que verbalizamos!

O intérprete da lei sabiamente respondeu à Jesus “a essência e a intenção da lei”, como observa I. Howard Marshall [5]. Interpretar os mandamentos de amar a Deus completamente (conf. Dt 6.5) e amar ao próximo como a si mesmo (conf. Lv 19.18) como a essência da lei era de fato condizente com a interpretação feita noutro momento pelo próprio Jesus (Mc 12.29-31), e era, segundo Marshall, uma interpretação já conhecida e comum mesmo antes de Cristo. Todavia, como a pergunta seguinte do doutor da lei, sucedida pela parábola contada por Jesus, vai evidenciar, aquele homem instruído na lei de Moisés pecava, a exemplo de seus conterrâneos, na interpretação reducionista da lei, pensando que o próximo era sempre o outro (não “eu mesmo”), e que este outro era sempre um próximo da mesma raça e “irmão”, não um gentio ou um mestiço como os samaritanos.

Jesus também sabia que essa interpretação reducionista e seletiva dos doutores da lei era recorrente, por isso disse noutro momento aos seus discípulos: “Ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.43,44).

O doutor da lei tentava se justificar diante de Jesus (v. 29), quando nenhuma acusação pública lhe foi feita. MacDonald observa: “Por quê [tentava se justificar]? Ninguém o acusou. Havia uma percepção de falha e seu coração ergueu-se em orgulho para resistir” [6]. Quando Jesus disse ao doutor “faze isto e viverás” (v. 28), não estava estabelecendo a observância da lei como condição para a salvação, nem práticas legalistas como condicionantes para recebimento da vida eterna. Estava antes, indo diretamente ao coração do doutor para confrontar-lhe a sinceridade de sua pergunta e evidenciar publicamente que embora ele soubesse a essência da lei, não estava ainda vivendo em conformidade com ela.

  • Quem é meu próximo?

A resposta anterior dada por Jesus, ativou o sentimento de culpa no consciente do doutor da lei. Se amar a Deus e ao próximo é a essência da lei e é o que deve ser feito para se herdar a vida eterna, então só restava ao doutor saber quem era “o próximo”, alvo deste amor. Algum pensamento do tipo “será que Jesus está me acusando de não amar o próximo?” deve ter relampejado na mente daquele teólogo. “Se assim for, então vamos resolver isso de uma vez: quem é meu próximo, afinal? Pois parece-me que não tenho deixado de praticar esses mandamentos”, deve ter pensado o doutor.

O professor Richards comenta que ao perguntar “quem é o meu próximo?”, o doutor da lei estava reduzindo as exigências da lei, interpretando-a de modo que pudesse viver à altura de seus padrões essencialmente mais baixos [7]. A tese por trás da pergunta do doutor da lei era: meu próximo é apenas meu compatriota israelita. E esta tese estava errada! Pois como afirma Keener, embora o contexto imediato de Levítico 19.18 aponte para os irmãos israelitas, “em contexto mais amplo, o termo se aplica a qualquer não israelita que vivesse na terra (19.34)” [8]. O doutor pensava que podia reduzir a extensão do mandamento para apenas os judeus; a lei, porém, tinha em vista o amor ao próximo, independente das diferenças raciais. O doutor da lei estava buscando a obediência mínima, enquanto Jesus queria a obediência absoluta!

Na verdade, o erro dele é, não raro, o nosso erro: querer restringir nosso campo de ação e limitar nossos deveres para podermos nos autogratificar enquanto fazemos o mínimo possível. Estamos sempre arrumando uma desculpa para nossa “meia-obediência” e nosso “meio-serviço”, quando deveríamos “fazer tudo conforme ele nos mandar” (Jo 2.5). “Enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos” (Gl 6.10) é uma regra que admite lista de prioridades (“especialmente aos da família da fé”), mas nunca uma lista de exclusividade (“sede uns para com os outros benignos” – Ef 4.32; conf. Mt 5.44; Rm 12.20). Myer Pearlman é quase poético aqui:

“O sol não pergunta: ‘Sobre quem brilharei?’, pois é de sua natureza o brilhar. (…) aquele movido pelo espírito de boa vizinhança e amor não pergunta: ‘Quem é o meu próximo? A quem serei gentil?’ A essência do verdadeiro amor não conhece limites, nem exceções: oferece-se instintivamente a qualquer pessoa cujas necessidades a transformam em objeto de simpatia e benevolência” [9].

A “meia-obediência” pode apenas estar revelando a total ausência de verdadeiro amor em nosso coração, a despeito da fé que professamos! Para corrigir a pergunta reducionista e discriminatória feita pelo doutor da lei e responde-la apropriadamente, Jesus conta, então, a parábola que ficou popularizada como “o bom samaritano”.

II. Compaixão e caridade são intrínsecas à fé salvadora

Na parábola, um homem foi assaltado e violentamente agredido no caminho de Jerusalém para Jericó (Lc 10.30). Veja-se que a violência urbana não é um tema novo, visto que bandidos existem desde os primórdios da humanidade. A introdução da parábola não causaria aos ouvintes judeus mais impacto do que as notícias de jornais policiais nos causam hoje. Keener diz que “os assaltantes eram comuns nessa estrada íngreme de quase trinta quilômetros [descida de Jerusalém para Jericó] e atacariam, em especial, alguém que viajasse sozinho” [10]. Robertson acrescenta que “os romanos fizeram um forte para patrulhar e vigiar este ‘caminho para Jericó, vermelho de sangue’” [11]. Se assim for, tal patrulha teria falhado no caso em questão. Na verdade, nem toda força policial nas ruas pode conter o ímpeto violento e maligno no coração dos homens!

A parábola vai chamando a atenção do público ouvinte, e levando em especial o doutor da lei à reflexão, na medida em que Jesus avança na narrativa. Três personagens são inclusos em sequência na narrativa: um sacerdote, um levita e, no clímax da parábola, um samaritano.

  • O sacerdote

Pelo mesmo caminho em que o homem roubado se encontrava caído e quase morto, passava um sacerdote que “descia”, isto é, ia de Jerusalém à Jericó, onde viviam muitas famílias de sacerdotes ricas. Todavia, embora transitando “pelo mesmo caminho” e “vendo-o” (para que ninguém amenize a responsabilidade do sacerdote sugerindo que ele tenha sido desatento ao invés de incompassivo), o líder religioso “passou de largo”, isto é, tomou distância proposital do homem caído, distância essa que foi não só espacial, mas muito mais emocional: havia uma distância de sentimento em relação ao homem caído; não foram só os pés, mas principalmente o coração do sacerdote que tomou distância, ignorando a necessidade daquele homem caído e nu.

Por quê o homem do culto e do altar, tão respeitado religioso que era, símbolo de espiritualidade e piedade para os judeus, tomou distância do homem caído? A nós causa perturbação tamanha insensibilidade, mas aos judeus, em especial ao doutor que ouvia Jesus, essa atitude não parecia ser motivo de inquietação. A parábola não diz a razão, mas ao menos três possibilidades os judeus poderiam apresentar como justificativa para a indiferença do sacerdote:

  1. Desconfiança – talvez na cabeça do sacerdote aquilo fosse uma encenação de um bando à espreita aguardando a primeira “alma caridosa” se aproximar para roubar-lhe tudo. O sacerdote olha, julga e apressa os passos para chegar à Jericó, preferindo não correr o risco.
  2. Medo e autoproteção – talvez o homem estivesse realmente ferido e precisando de socorro, mas como o caminho é perigoso, rodeado de salteadores, e nem mesmo a guarda romana conseguiu livrar este homem de tal infortúnio, quem poderia garantir a segurança do sacerdote se parasse para ajudar o homem caído? Seria melhor proteger a própria vida e evadir-se o quanto antes.
  3. Zelo – talvez, como sugerem muitos comentaristas bíblicos, o sacerdote estivesse cauteloso quanto à sua pureza cerimonial, não querendo correr o risco de tocar no corpo de um defunto (Lv 21.1). Neste caso, o preceito cerimonial teria superado o preceito moral.
  • O levita

O levita era o auxiliar do culto, descendente de Levi e exercia funções religiosas semelhantes às do sacerdote, mas em submissão a este. Imitando o primeiro religioso, este também ignorou o homem caído, e as razões em sua mente podem ter sido as mesmas do sacerdote, ou talvez ele apenas tenha visto o seu líder e pensado: “bem, se o sacerdote não fez nada, deve ter razões justificadas para isso”. Pearlman acrescenta que o levita deve ter pensado consigo: “Fosse isto um dever, ele [o sacerdote] não teria deixado de cumpri-lo – ele é o meu exemplo. Ajudar este homem em tais circunstâncias seria uma afronta ao meu superior” [12].

Se estiver certa a nossa interpretação de que a conduta indiferente do levita foi pautada na de seu líder, então estaríamos no caso em que o exemplo da liderança é supervalorizada, até mesmo para falsamente justificar casos de omissão. É o velho dilema moral: o que escolher entre dois deveres que parecem se contradizer, seguir o exemplo do líder ou contrariá-lo por um bem maior? A solução reside no fato de que cada um de nós somos responsáveis diante de Deus (Rm 14.12) e o uso das lideranças como referencias de conduta só pode ser feito quando estas lideranças agem em conformidade com a sã doutrina e os bons princípios e valores da Palavra. A mesma Bíblia que diz “imitai a fé dos vossos pastores e atentem para sua maneira de viver” (Hb 13.7),também diz “não sigas o mal, mas o bem” (3Jo 1.11).

  • O samaritano

É de todos sabido que os samaritanos não se davam bem com os judeus (Jo 4.9), de tal modo que até mesmo os discípulos de Cristo lhe sugeriram uma intervenção divina para destruir os samaritanos que não haviam lhe recebido (Lc 9.52-56), coisa que eles não pediram quando muitos judeus rejeitaram a Jesus, como os de sua cidade Nazaré.

Quando Jesus disse ao doutor da lei que o sacerdote e o levita ignoraram o homem ferido no caminho, mas “eis que um samaritano ia de viagem…”, nesse momento o doutor deve ter pensado: “Ah! Se o sacerdote e o levita não fizeram nada, muito menos fará esse samaritano! É bem capaz de ter terminado de matar o homem ferido no chão…”. Mas antes que seus pensamentos vagueassem demais, vem o clímax da história contada pelo mestre Jesus: “um samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão, e, aproximando-se, atou-lhe as feridas…”.

O doutor da lei, que era judeu, ouvindo isso deve ter sentido um forte impacto: as batidas de seu coração devem ter acelerado, sua respiração deve ter ficado ofegante, suas pupilas devem ter dilatado, e uma saliva amarga deve ter descido pela garganta. “Um samaritano fez isso? Um samaritano?!” – deve ter indagado muitas vezes. Marshall destaca que a plateia de Jesus provavelmente esperava que o terceiro personagem fosse um judeu leigo, conferindo assim à parábola um toque anticlerical [13], o que seria mais fácil de engolir: é melhor que o herói da parábola seja um judeu comum do que um mestiço! Mas Jesus, o mestre por excelência no uso das parábolas, certamente tocou na ferida dos judeus, ao apresentar um samaritano como o herói da parábola!

Se o sacerdote e o levita eram egoístas ou demasiadamente apegados aos ritos cerimoniais da lei, ignorando que o amor e a compaixão são virtudes morais que precedem os preceitos cerimoniais dos mandamentos, este samaritano ensina que mais do que conhecer integralmente a lei, interpretá-la seletivamente e cumpri-la parcialmente, é preciso vivê-la essencialmente! Ora, se a essência da lei era o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo – o que o doutor da lei sabia muito bem (vv. 27,28) –, então todas as possíveis desculpas apresentadas pelo sacerdote e o levita da parábola caíam por terra diante da urgente necessidade de amor, que o homem caído ao chão demonstrava carecer. Se tinham amor por Deus e por si mesmos, igualmente deveriam manifestar esse amor para com o homem caído. Mas parece que o amor deles, como do doutor da lei que dialogava com Jesus, não ultrapassava os limites de uma mera declaração oral, sem reflexo prático.

A compaixão demonstrada pelo samaritano é abnegada e desinteressada. Se o problema era o local ser infestado de ladrões, ele aceitava correr o risco; se deter-se para ajudar o homem poderia atrasar compromissos pessoais, ele não faria caso; se o homem estivesse morto e tocar nele lhe acarretasse alguma impureza cerimonial, ele aceitaria a pena. O mais importante era socorrer o homem e dar-lhe toda assistência possível, qualquer que fosse o preço!

Os primeiros socorros foram prestados ali mesmo, no caminho (v. 34), cuidados especializados foram ministrados na estalagem onde o samaritano hospedou seu novo amigo (v. 34), ainda que este talvez nem tivesse forças para agradecê-lo até que tivesse recobrado a consciência e as forças. Quaisquer gastos empreendidos no tratamento do homem ferido seriam custeados pelo samaritano (v. 35), como se sentindo em seu coração que não bastava oferecer os primeiros socorros nem entregar os cuidados a outros, mas ser seu dever moral fazer o bem incansavelmente! Aquele era um samaritano pródigo, que “esbanjava”, no bom sentido, amor para com o próximo, mesmo um desconhecido, mesmo um judeu. O amor é benigno (1Co 13.4), isto é, se compraz em pensar, desejar e fazer o bem!

III. O nosso próximo é qualquer pessoa necessitada

Ao fim da parábola Jesus pergunta ao doutor da lei: “Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” (v. 36). Observe que Jesus muda o foco da pergunta feita anteriormente pelo doutor da lei:

– doutor da lei: “quem é o meu próximo?”

– Jesus: “qual destes três foi o próximo?”

Embora com certo ressentimento que lhe impedia de responder diretamente “o samaritano”, o doutor da lei reconhece que foi o samaritano que agiu como o próximo do homem roubado (v. 37). Assim, esta foi uma parábola amarga, mas cuja lição certamente foi compreendida pelo doutor da lei: nunca se deve perguntar a quem fazer o bem, como limitando o alvo de nosso amor, usando de discriminações e acepções; antes deve se perguntar se eu mesmo sou o próximo para alguém. O amor verdadeiro não constrói, antes derruba as barreiras etárias, sociais e raciais!

O apóstolo João, conhecido como “o apóstolo do amor”, é muito incisivo sobre nosso dever moral de demonstrar compaixão pelos que sofrem: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1Jo 3.17,18). Tiago, irmão de Jesus, dizia que o amor é a lei real, isto é, a lei do reino de Deus (Tg 2.8), amor que está para além da profissão de fé (Tg 2.17), e que se traduz em atos de bondade sem acepção de pessoas (Tg 2.1,9).

O doutor da lei que interpelou Jesus conhecia a letra da lei mosaica e a interpretava razoavelmente, mas ao perguntar a Jesus “quem é o meu próximo?” na intenção de impor limites ao exercício do amor, aquele intérprete da lei demonstrou que, nas palavras de Marshall, não precisava de um novo conhecimento, “mas de um novo coração – ou, em bom português, de conversão” [14]. Não lhe faltava informação, faltava-lhe transformação! Não lhe faltava ortodoxia, faltava-lhe ortopraxia!

Não sabemos como aquele doutor voltou pra casa após o diálogo com Jesus, mas sabemos como nós devemos voltar pra nossas casas após o estudo de hoje. Os que creram em Cristo e almejam de fato a vida eterna, precisam agora evidenciar a sua salvação, colocando-a em prática, no exercício da bondade e da benignidade (Gl 5.22). Conhecer, até o diabo conhece; praticar, somente o verdadeiro salvo pratica!

Conclusão

Na Lição passada aprendemos que não há limites para o perdão; na lição de hoje aprendemos que não há limites para o amor! Como temos aprendido desde as primeiras lições, as parábolas de Jesus objetivam levar-nos a uma profunda reflexão sobre nossa posição no reino de Deus e a uma mudança de comportamento. Assim sendo, perguntemo-nos: quem sou eu nesta parábola, em vista dos necessitados que estão pelo meu caminho? Sou o sacerdote? Sou o levita? Sou o samaritano? Todos nós em algum momento da vida podemos nos identificar com o próprio homem caído no chão, necessitado da compaixão e do socorro; mas nesta parábola, Jesus quer que nos percebamos como os sujeitos que negam ou oferecem amor a quem precisa. Certamente há alguém muito perto de nós, em nosso caminho, precisando de nossa ajuda. Que faremos? Passaremos de largo ou nos aproximaremos? Meditemos nas palavras inspiradas do apóstolo Paulo: “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gl 6.9).

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Referências

[1] Craig Keener. Comentário histórico-cultural da Bíblia – Novo Testamento, Vida Nova pp. 242,3
[2] Myer Pearlman. Lucas, o evangelho do homem perfeito, CPAD, p. 80
[3] A.W. Tozer. Vida crucificada, Vida, p. 35
[4] A.T. Robertson. Comentário Lucas à luz do Novo Testamento grego, CPAD, p. 204
[5] I. Howard Marshall. em Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, p. 1502
[6] William MacDonald. Comentário Bíblico Popular – Novo Testamento, Mundo Cristão, p. 189
[7] Lawrence Richards. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis à Apocalipse capítulo a capítulo, CPAD, p. 661
[8] Craig Keener. Op. cit., p. 242
[9] Myer Pearlman. Op. cit., p. 81
[10] Craig Keener. Op. cit., p. 243
[11] A.T. Robertson. Op. cit., p. 206
[12] Myer Pearlman. Op. cit., p. 83
[13] I. Howard Marshall. Op. cit.
[14] I. Howard Marshall. Op. cit.



Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.

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