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A teologia fake dos críticos da participação evangélica nas eleições

A interpretação errônea da Bíblia e a guerra cultural contra os valores cristãos


A teologia fake dos críticos do voto evangélico

Um tema muito importante, interessante e atual consiste na atuação do segmento evangélico no debate público, o que abrange desde o pronunciamento sobre assuntos de interesse coletivo (a partir da cosmovisão cristã) até a participação de evangélicos na política partidária. Trata-se de uma seara relacionada a diversas áreas do conhecimento, a exemplo de sociologia da religião, história da igreja, apologética e ética cristã.

O leitor mais acostumado a discussões sobre religião e política, Estado e Igreja, princípio do Estado laico ou marxismo cultural sabe que a Teologia da Libertação é o marxismo aplicado à teologia no mundo católico, e que certos cursos de teologia servem a que professores doutrinem seus alunos conforme os postulados da esquerda, o que acontece também entre evangélicos. No entanto, a presente situação do Brasil exige que atualizemos nossos estudos e reflexões acerca das estratégias socialistas quanto ao mundo cristão, especialmente o evangélico pentecostal e “neopentecostal”.

Tenho pensado sobre o uso político da teologia, principalmente em sua vertente pentecostal, fenômeno que me parece cada vez mais evidente, atuando na intersecção entre a academia, o jornalismo e o ativismo político.

De fato, a ascensão de Jair Bolsonaro com apoio de amplos setores da comunidade evangélica implicará num recrudescimento da guerra de narrativas contra a bancada evangélica, o chamado “neopentecostalismo”, as estruturas de poder eclesiástico, a cosmovisão cristã e até mesmo a teologia cristã, a fim de desmoralizar, enfraquecer e desviar os evangélicos de suas convicções mais profundas, as quais lhes define a identidade e o pertencimento.

Pouco antes do primeiro turno, o crescimento de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto foi atribuído à adesão do segmento evangélico depois das manifestações “Ele Não”: Fernando Haddad, candidato que toda segunda-feira visitava a cadeia para ouvir as determinações do condenado Lula, disse que o resultado das pesquisas indicava “fake news” disseminadas por WhatsApp; Fabia Karklin, criadora desse movimento feminista anti-Bolsonaro, alegou que o fortalecimento do candidato do PSL nessa reta final se deve à “coerção do voto evangélico”. Na verdade, nem o candidato petista (teleguiado por um prisioneiro) nem a feminista compreendem o fenômeno político que explica o voto evangélico, muito menos a forma negativa como as bizarrices da esquerda radical têm sido percebidas por pessoas comuns, evangélicas ou não.

Foi nesse contexto que deparei com publicações do site da revista Época versando basicamente sobre o voto evangélico: começarei por um artigo que procura explicar o voto evangélico a partir das ferramentais tradicionais, que lidam com aspectos como nível cultural, relação pastor-rebanho e corte ideológico; depois, analisarei sucintamente o texto que avança ao campo que considero ainda mais insidioso, qual seja, o emprego de argumentos teológicos para ensejar escolhas políticas de esquerda (por isso, este segundo texto é o foco principal deste artigo).

O primeiro texto ora referido, assinado por Bruno Abbud e publicado em 6 de outubro de 2018, tem por título “Como Bolsonaro se tornou o candidato dos evangélicos”, seguido do subtítulo “É o sentimento antiesquerda que move a horda religiosa na direção do presidenciável direitista”. Em suma, depois de citar a adesão de Silas Malafaia, Edir Macedo e José Wellington Bezerra da Costa ao nome de Jair Bolsonaro, e de lembrar o crescimento evangélico no Brasil desde 1980, o autor procura explicar as razões que levam os evangélicos a votarem contra a esquerda, cujas pautas, conforme a matéria, seriam “mais humanistas”.

Ouvida pelo jornalista, a doutora em ciência política Isabel Veloso, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), inclina-se a uma defesa do PT e da esquerda e tenta deslocar do PT a promoção da ideologia de gênero e outras bandeiras nitidamente petistas. Referindo-se à experiência da especialista em suas “andanças pelo Rio de Janeiro”, Bruno Abbud insinua que pastores têm violado a lei eleitoral para induzir os frequentadores de igrejas a votarem nos candidatos de sua preferência – fenômeno que, se existe, não pode ser associado exclusivamente a candidatos conservadores, muito menos ao candidato do PSL à presidência da República.

A própria doutora Isabel Veloso incorre, digamos, em grande imprecisão técnica, ao dizer que um dos motivos de Bolsonaro crescer nas pesquisas seria o fato de o seu eleitor não confirmar as fontes das mensagens que recebe, quando sabemos que, também conforme pesquisas, os recortes por escolaridade mostram que o eleitor mais instruído (e mais propenso a duvidar da informação) vota majoritariamente em Bolsonaro, e o menos instruído, em Haddad (confira dados da pesquisa Datafolha feita em 10 de outubro, veiculados pelo G1, em que, no eleitorado de nível superior, 58% dizem votar em Bolsonaro, e 30%, em Haddad; no eleitorado de nível médio, 53% dizem votar em Bolsonaro, e 33%, Haddad; no de nível fundamental, 39% dizem votar em Bolsonaro, e 44%, em Haddad).

Entretanto, o que mais me despertou a atenção foi o seguinte texto, publicado em 3 de outubro e de autoria de Stéfano Salles: “Análise: para ser coerente, a bancada evangélica precisa abandonar a defesa do Antigo Testamento”. O título da matéria já indica que o autor pretende tecer uma consideração com algum enfoque “teológico”, mas chamam a atenção tanto esse enfoque como a ligeireza com que isto foi feito. Neste artigo, procurarei fazer uma análise sucinta do texto referido.

Antes de prosseguir, cabe observar que Stéfano Salles não é um jornalista conhecido, muito menos um daqueles que se dedicam à cobertura política – parece que vem do jornalismo esportivo. Ao compartilhar o link do artigo em sua página no Facebook, ele anotou: “A série ‘Coisas que nunca pensei que faria’ ganha mais um capítulo: um artigo meu na Época”. Contudo, seu texto mereceu publicação no site de uma das principais revistas do país, o que já sugere uma linha editorial. Além disso, o artigo exibe elementos capazes de ilustrar, à saciedade, o que pretendemos dizer com guerra cultural no campo da teologia.

Vamos, pois, a uma “análise da análise”, a qual se inicia com a afirmação de que a crescente bancada evangélica tem-se dedicado a monitorar o avanço de questões comportamentais. Observe: em vez de participar do debate público, a bancada evangélica “monitora” as conquistas, o fluxo, o progresso, como quem tenta frear e impedir o avanço da civilização… A depender da ideologia manifesta na referida “análise”, caberia aos parlamentares evangélicos o papel de acompanhar o ritmo ditado pelos pretensos progressistas.

Neste ponto cabe uma palavra que servirá a esta e a outras reflexões sobre o discurso da esquerda, especialmente na imprensa e nas redes sociais: uma das maneiras com as quais a esquerda trabalha na construção de sua narrativa cultural é a substituição de vocábulos e expressões por outras que sejam mais palatáveis ao público. É mais do que politicamente correto – é a manipulação da linguagem para criar realidade política.

É mesmo interessante verificar os cacoetes de esquerda num texto publicado em veículo da grande imprensa. Todos os códigos estão dados de forma clara – mas não declarada! A percepção desses cacoetes de esquerda torna mais fácil compreender do que realmente se trata.

Os exemplos saltam aos nossos olhos: quando o autor escreve “direito reprodutivo das mulheres”, leia-se “aborto”; “direitos civis da população LGBTQ+” seria um nome elegante para “promoção da agenda gay”; com “inclusão de discussões de gênero na Educação” a matéria se refere à própria ideologia de gênero nas escolas e ao que propõe a militância feminista; “necessidades da contemporaneidade” seriam, na verdade, as bandeiras da esquerda, mas o jornalista precisa transmitir a noção de que escreve como um observador isento, ocupado em deter a jornada do atraso.

Em seguida, o autor chama a atenção para a aparente contradição entre a homogeneidade política do bloco evangélico e a grande quantidade de igrejas, sugerindo que a divisão entre igrejas se deveria reproduzir no campo político – uma ideia absolutamente errada, de quem parece não compreender a natureza da heterogeneidade evangélica no Brasil.

Quando se refere a uma suposta “narrativa de pânico moral”, Stéfano Salles faz uma caricatura da ética cristã, que é necessariamente conservadora nos costumes. E sua hipótese é de que o fundamento de tal “pânico moral” é a Bíblia, principalmente Livros como Levítico e Deuteronômio, que para ele “são responsáveis pelas passagens mais ameaçadoras sobre o comportamento humano, que parecem retiradas no Código de Hamurabi”.

Além do anacronismo revelado na tentativa de interpretar o Antigo Testamento com os óculos da atualidade – sem primeiro interpretar o que o texto disse em seu contexto histórico e cultural para depois aplicar os princípios aos dias hodiernos – Salles esquece que a ética cristã é produto de uma perspectiva sistemática da Bíblia, em que o Novo Testamento explica e cumpre o Antigo. Ele parece não saber ou simplesmente despreza o entendimento – de máxima relevância na teologia e cosmovisão evangélicas – de que o Pentateuco contém leis morais, leis civis e leis cerimonais, e de que as leis morais têm aplicabilidade universal e atemporal.

Salles precisa desacreditar (como se pudesse…) o Antigo Testamento como referência ética, e reconhecê-lo, no máximo, na condição de “obra de profundo valor histórico e afetivo para os cristãos”, e isto faz certamente porque na Lei encontramos, por exemplo, condenações morais explícitas à prática homossexual (cf. Lv 18.22; 20.13). Vê-se, então, que os pressupostos esquerdistas do autor do texto corrompem sua interpretação das Escrituras.

Essa tese de que o Antigo Testamento seria um simples texto histórico se insere muito bem na estante do liberalismo teológico, não podendo ser aceita por cristãos históricos e ortodoxos. Para satisfazer seus pressupostos liberais e alcançar seus objetivos político-ideológicos, o autor da matéria em questão precisa acusar o Deus do Antigo Testamento de ser “justiceiro e carrasco”, por supostamente enxergar “pecado em qualquer hesitação”, sendo que a própria palavra “hesitação” cumpre aí uma função destinada a seduzir mentes mais sensíveis, que poderiam pensar: “O Deus do Antigo Testamento castigava meras hesitações?” Lança-se com isso a semente da dúvida.

Trata-se de um festival de assertivas “teológicas” infundadas, mas que foram registradas como se houvesse ali premissas racionalmente aceitáveis, iluministas, quiçá científicas, como quando jornalistas citam extratos de pesquisas em biologia para “comprovar” a evolução darwinista e rejeitar a “ideia de Deus”.

De onde o jornalista extraiu a afirmação de que o Novo Testamento derroga e prevalece sobre o Antigo Testamento? Todo o Novo Testamento reconhece, confirma e exalta o Antigo Testamento, chamado de “Lei, Profetas e Escritos”; há inúmeras citações do Antigo Testamento nos Livros do Novo Testamento; Jesus Cristo disse que não veio revogar, mas cumprir a Lei, e Sua identidade como o Messias prometido estava amparada naquele conjunto de Livros, como o próprio Senhor disse no Caminho de Emaús. Essa “face mais tolerante de Deus, marcada pelo perdão e pela misericórdia”, a que o autor se refere, atende, na realidade, por outro nome: é a tentativa de relativizar os comandos éticos da Bíblia, classificando como “tolerância”, “perdão” e “misericórdia” o que seria a flexibilização do conteúdo ético que limita a pecaminosa ação humana.

Como se estivesse preocupado com o valor do sacrifício de Cristo na Cruz, o autor do texto ainda tem a ousadia de questionar a identidade cristã daqueles que procuram seguir um padrão moral conservador, porque, segundo sua teologia liberal-esquerdista, tal reivindicação da condição de cristãos seria uma decorrência do apego exagerado aos textos anteriores à chegada de Cristo. Caberia, então, à Igreja consultar o jornalista sobre o que significa ser cristão? Não sabia disso…

O jornalista chama de “discurso radical” aquele que luta contra a descriminalização do aborto, e considera um absurdo ter sido apresentado projeto “até mesmo para proibir o aborto decorrente de estupro”. Ser favorável à preservação da vida é, por acaso, algum tipo de radicalismo? Não se engane: a defesa do aborto costuma começar por discursos de pretensa defesa da “saúde da mulher”, e falam da descriminalização do aborto decorrente de estupro – que já existe no Brasil – como forma de pautar o debate rumo ao aborto em quaisquer circunstâncias, porque a bandeira abortista é um dos cancros do feminismo de esquerda e da revolução sexual iniciada nos Anos 60.

O mesmo “discurso radical” abrangeria, segundo Stéfano Salles, a “criação de narrativas apocalípticas sobre temas corriqueiros do dia a dia, como a transformação do conceito de família ao longo dos séculos”. Há aqui uma contradição em termos: como a transformação de um conceito de instituição social ocorrida no curso da história pode ser, em qualquer aspecto, um tema “corriqueiro” do dia a dia? E mais: o autor compara o reconhecimento do casamento gay aos direitos de adoção e ao divórcio, com o objetivo de tornar aceitável a ideia de que uma pessoa possa contrair matrimônio com outra do mesmo sexo, pondo tudo na conta das transformações sociais. Por esse raciocínio, teríamos de legalizar a bigamia, porque largamente praticada, atendendo à vontade das partes envolvidas e ao princípio secularista do “Ninguém tem nada com isso”.

Numa coisa o jornalista está certo: ele realmente tem compromisso com o espírito do tempo, o zeitgeist dos alemães. Os cristãos, porém, precisam discernir os tempos (cf. Rm 13.11), jamais se conformando com ele e buscando transformação pessoal (cf. Rm 12.2). Não nos cabe testemunhar calados o “avanço” das pautas “progressistas”. Somos cidadãos como todos os demais, e podemos participar livremente do debate público, o que inclui discordar e reagir ao espírito do tempo.

Notem uma afirmação perigosa que vem logo depois: os parlamentares, por serem “pagos com dinheiro público”, não poderiam atuar conforme sua visão de mundo, mas o autor escreve isto de forma diferente: “muitos parlamentares, pagos com dinheiro público, veem-se no direito de sufocar uma já oprimida parcela da sociedade por conta de uma fé que ela sequer professa”.

A fé dos políticos evangélicos está associada a uma visão de mundo, a cosmovisão cristã, mas o autor do texto precisa recorrer à divisão entre sagrado e secular, a um dualismo antigo de vestes agora pós-modernas que coloca o cristianismo num compartimento estanque, o que também atende pela alcunha de “privatização da fé”. A tese não tem como ser mais clara, estando ali para dar testemunho disso a referência ao dinheiro público, como se estivesse dizendo: “Se é pago com o dinheiro público e o Estado é laico, o parlamentar não pode expressar uma visão de mundo de matiz cristã”. O nome disso? Intolerância religiosa.

A pena de Stéfano Salles não é endereçada ao público ateu-agnóstico, sem religião ou de outros credos, mas basicamente ao público cristão: seu propósito é veicular uma narrativa política de base teológica, para ganhar a batalha no terreno do inimigo, e para isso mira os próprios frequentadores de igrejas. É para os cristãos que interessa uma interpretação bíblica, e não para quem já acha que a Bíblia é livro ultrapassado, sem importância ou sem valor espiritual. Considerando que o crente vai buscar na Bíblia resposta para tudo – pensa o esquerdista – será necessário oferecer a esse crente uma interpretação que contribua para o progresso da esquerda.

Prossigamos: a que “liberdade maior” o autor se refere quando menciona a “face de Deus apresentada pelo Novo Testamento?” Seria alguma palavra neotestamentária de apoio ao casamento gay, à mudança de sexo, ao aborto, à promiscuidade sexual, aos “modelos alternativos de família?” O jornalista não leu o que Paulo escreveu sobre sexualidade? Ou nas Epístolas de Paulo o Novo Testamento deixaria de ser tolerante, amoroso e misericordioso para ser machista e retrógrado?

Na concepção do autor do texto, os líderes evangélicos adotariam “a lei” para proibir o rebanho de usar da liberdade conferida pelo Novo Testamento… Não sabe que as exortações morais que orientam as igrejas estão embebidas de Novo Testamento? Não é por isso que o apóstolo Paulo é tão criticado como supostamente “misógino” por exortar à submissão cristã?

Empregando uma suposta defesa da democracia representativa e do controle dos atos da administração pública, o autor do texto aparenta criticar o domínio que os pastores têm sobre os crentes na esfera eleitoral, o que seria valioso se se tratasse de uma tentativa intelectualmente honesta de sugerir meios de o segmento evangélico se fazer representar na seara política. Todavia, por baixo dessa higiênica propaganda de independência política dos crentes está o objetivo de que as pessoas se distanciem de sua cosmovisão cristã, apegando-se ao que a esquerda propõe – o que eles querem é afastar o crente de seus próprios valores. É certo que precisamos avaliar a forma como as igrejas se organizam politicamente, afastando os riscos do autoritarismo, do fisiologismo e do voto de cabresto, mas toda a peroração do jornalista gira em torno, não da melhor representação evangélica, e, sim, de sua anulação completa.

Resumir o conservadorismo da bancada evangélica a uma estratégia eleitoral é desconhecer completamente o mundo evangélico e o próprio conservadorismo político ou moral. Artigos e livros poderiam ser escritos para explicar o conservadorismo aos jornalistas brasileiros, e graças a Deus o mercado editorial tem sido abençoado com obras de grande qualidade. Chega a ser aviltante essa maneira de ver o povo evangélico, como simples massa de manobra nas mãos de políticos que, tirados de seus arraiais, usariam a plataforma conservadora tão somente como instrumento de obtenção de votos. As coisas não são bem assim…

O eleitorado evangélico realmente se mobiliza em torno das pautas em que acredita, e foi por isso que em janeiro de 2012, no auge da hegemonia petista, Gilberto Carvalho esboçou a ideia de disputar espaço com os pastores – é que faltava romper o cerco desse reduto conservador, formado por um imenso contingente que, embora tivesse carreado tantos votos a candidatos petistas, consistia numa barreira contra a dominação no campo dos valores.

Voltando ao texto: estamos lidando com uma peça proveniente da imprensa, mas o jornalista cita uma fonte acadêmica, o livro “Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder”, publicado neste ano pela também jornalista Andrea Dip. Será, com efeito, muito instrutivo verificarmos que os intelectuais influenciam a sociedade mais do que se imagina, e que essa influência faz com que estudos “científicos” dominem as conversas em rodas de amigos enquanto estes pensam ser muito originais em tudo o que dizem.

De acordo com Salles, citando a autora do mencionado livro, o eleitorado evangélico seria usado para que os políticos da bancada evangélica conseguissem “renovações de concessões de rádio e televisão, esforços para a manutenção de isenção fiscal de igrejas e templos religiosos e títulos de utilidade pública para recebimento de verba estatal”. Não sei se o jornalista tem conhecimento disso, mas os templos de qualquer culto têm imunidade tributária, o que consiste em regra constitucional, algo muito diferente de isenção, um outro instituto jurídico.

Aqui não se desconsidera a existência de eventuais aproveitadores ou de políticos que não estão à altura das agendas conservadoras que esgrimem, mas não se pode reduzir a pauta conservadora à mera manipulação do segmento evangélico a troco de benefícios “mundanos”.

Não está claro o que o autor quer dizer com “exigências legais de contrapartida”, cuja falta impediria a “oxigenação das instituições”, mas é possível perceber que ele transita da crítica teológica à crítica da forma de governo eclesiástico, ditando regras que, em seu entendimento, dariam mais consistência ao procedimento das igrejas.

Citar o nome do pastor Silas Malafaia é uma forma de trazer o leitor para perto da tese defendida na matéria, pois se trata de um líder evangélico muito conhecido, “polêmico”, contrário a pautas da esquerda e de grande visibilidade. Com isso, o leitor bem-intencionado e não consciente da realidade da guerra cultural pode se sentir atraído pela argumentação central, qual seja, a de que o conservadorismo evangélico é fruto de manipulação eleitoral e má interpretação das Escrituras.

Toda esta “análise da análise” tem a finalidade declarada e escancarada em alta voz de chamar a atenção do amigo leitor para a natureza do processo político que enfrentamos. Fala-se tanto em fake news, mas existe também o que poderíamos denominar “fake theology”, produzida para consumo de evangélicos, e que agora se fabrica com maior intensidade para seduzir pentecostais e “neopentecostais”, público que a esquerda não pretende perder de jeito nenhum.

A teologia liberal já assolava importantes arraiais protestantes de confissão reformada, mas é perceptível que as fake theologies serão incrementadas com destino certo, mirando o coração de crentes pentecostais e “neopentecostais” até que a visão de mundo dessas pessoas deixe de ser cristã e passe a ser “progressista”. Se eles tiverem sucesso, quando menos se esperar até mesmo evangélicos ditos conservadores andarão dizendo que “Paulo era machista”, que “precisamos seguir somente o Novo Testamento”, que “a proibição do pastorado feminino é coisa de sociedade patriarcal”, que “o pentecostalismo é um movimento de resistência de pobres, negros e mulheres contra a opressão branca, elitista e calvinista”, e outras bobagens desse jaez.

Ao concluir, o autor do texto ora analisado exorta o leitor a orar e vigiar, como se acreditasse no que escreveu o apóstolo Mateus, por ele expressamente citado. Acredite: a hermenêutica seletiva não é casual, pois cumpre aquilo que seus pressupostos recomendam.

O movimento lulopetista atua para dominar a cena política, seja por meio de mensalões, seja por meio da “corrupção da inteligência”, para usar uma expressão de Flavio Gordon.

Desde que o PT chegou ao governo federal, com a posse de Luiz Inácio da Silva em 2003, a sociedade brasileira foi assaltada por um projeto hegemônico de poder, que envolveu grandes esquemas de saque ao erário, promoção de uma agenda de suposta defesa de minorias e construção de uma narrativa cujo objetivo é falsear a realidade para atacar adversários e proteger seus líderes e asseclas dos rigores da Justiça e da crítica da opinião pública. Para isto contribuiu e tem contribuído a “classe falante”, formada por intelectuais, artistas, jornalistas, “especialistas” e professores, além de um sistema educacional público formatado para disseminar doutrinação ideológica.

Estamos no meio de uma guerra ideológica, axiológica e cultural, o que dificulta a percepção da realidade por parte do público, influenciado por uma imprensa que se deixa pautar pelo projeto petista de poder, o qual conta, ainda, com as linhas auxiliares representadas pelo PSOL, PCdoB, PCB, PCO, PSTU, MST, MTST, movimento feminista, movimento negro, entre outros.

Mais do que nunca, é necessário que o cristão esteja vigilante, não apenas quanto a heresias, mas também quanto a “filosofias e vãs sutilezas”, como o apóstolo Paulo nos advertiu em Cl 2.8. Tenho fortes razões para supor que de agora em diante a teologia será amplamente manipulada para favorecer plataformas político-ideológicas, começando em gabinetes e bibliotecas universitárias para depois preencher artigos de jornal, pregações no púlpito e conversas informais de crentes que se acham simples amantes do Reino de Deus, quando estão, na verdade, sucumbindo à guerra cultural.



Ministro do Evangelho na Assembleia de Deus em Salvador/BA. Membro do Conselho de Educação e Cultura da CONFRAMADEB. Bacharel em Direito. Casado e pai de três filhos.

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